Palavras que questionam: reflexos da luta pelos direitos das mulheres no quotidiano da produção e tradução de textos.

No dia 8 de março vamos celebrar o dia internacional das mulheres, que surgiu para revocar, a cada ano, a luta pelos direitos das mulheres, mais especificamente, no início do século XIX, pelo direito ao voto.

Parece quase irreal pensar que houve época em que não tivemos direito ao voto. Talvez também pareça irreal, no futuro, saber que ainda há enormes diferenças salariais entre homens e mulheres, e também que muitos mais cargos de chefias sejam delegados a homens do que a mulheres. Apesar de técnica e teoricamente sermos seres humanos iguais em potencialidades e em capacidades, ainda há muita estrada a percorrer para a igualdade de direitos e de condições de vida e de trabalho.

Igualdade e produção textual

Um dos meios de luta em busca da total igualdade de direitos e oportunidades é a palavra, ou em conjunto, o texto. Textos, crônicas, romances, livros técnicos, panfletos e outros tantos materiais carregam em si palavras que podem esclarecer, questionar e combater temas e estereótipos que, de algum modo, se relacionam com a luta pelos direitos das mulheres. Pelo modo como são elaborados, por quem são produzidos e em que condições os diferentes tipos de texto são preparados constituem questões em que pouca gente pensa. Você já pensou nisso? No que isso tem a ver com a luta por direitos, com a igualdade?

Um dos aspectos é aquele que acontece nos bastidores da produção dos textos e, consequentemente, das traduções. Será que o número de autoras mulheres publicadas é semelhante ao número de autores homens publicados? Será que há cuidado das empresas que trabalham com palavras e idiomas, como editoras, agências de tradução, empresas de revisão e assessorias em contratar quantidades semelhantes de homens e mulheres? Os cargos de chefia e coordenação são bem distribuídos?

Essas questões podem parecer ingênuas e a primeira ideia que vem à mente possivelmente seja: “ora, mas o importante é que a pessoa escreva, traduza ou revise bem, não importa de que gênero ela é”. Entretanto, a igualdade numérica e, obviamente, também de remuneração, vai permitir que o mercado seja mais igualitário e vai gerar mais independência feminina. Mais um passo à frente na estrada da igualdade.

Tradução feminista

Outra frente de luta, ligada diretamente à produção e à tradução de textos, diz respeito à tradução feminista. Para esclarecer um pouco o que é isso, vou ilustrar com um exemplo pessoal: estou traduzindo Pinóquio, um texto bastante antigo e muito traduzido, inclusive para o português. Antes de começar a traduzir, dei uma passada de olhos em traduções anteriores. Pinóquio parece ser um texto bastante “rígido” e avesso a mudanças, no sentido de ser uma história muito conhecida e acaba produzindo traduções bastante semelhantes entre si. É a história de um boneco que quer se transformar em um menino, diz o original. Ele, mesmo enquanto boneco, faz o que todos os meninos fazem, diz o original: mente, se distrai, não respeita o pai e por aí vai. Na época em que foi escrito e depois, nas subsequentes traduções, Pinóquio é e continua a ser um menino, representante do que os meninos fazem, simplesmente porque naquela época quem se aventurava eram os meninos, e “meninos” era o plural genérico de todos os indivíduos na fase da infância.

Como incluir as meninas?

Ao começar a traduzir o texto, aqueles meninos para cá e meninos para lá começou a me incomodar bastante e decidi trocar a palavra por uma forma que fosse, pelo menos, neutra: crianças. Assim, adicionei todas as meninas a um mundo mais atual para Pinóquio, e elas, mesmo camufladas, começaram também a participar das aventuras. Confesso que fiquei com vontade de “sequestrar” o texto e transformar Pinóquio em uma menina levada e transportar todo aquele mundo para o feminino, numa tentativa de mostrar que personagens que cometem travessuras e participam de aventuras não são prerrogativas masculinas. Não realizei meu desejo secreto, mas aquela simples troca de palavras forneceu uma pontinha de igualdade a quem pode protagonizar uma história. Esse procedimento faz parte da tradução feminista, isto é, refletir sobre questões de gênero, não reproduzir estereótipos e tornar o texto mais inclusivo e mais igualitário no processo de tradução.

Muito além de números e salários

Além da questão numérica e salarial, o universo de produção de textos é tocado por fatores ainda mais intrínsecos ao quotidiano de trabalho. Sabemos que o mercado de trabalho é maioritariamente formado por mulheres e o desenvolvimento do trabalho se dá no âmbito doméstico. Eu poderia, sem medo, usar um plural genérico feminino e afirmar: as tradutoras, revisoras e escritoras trabalham em ambiente doméstico. Mas em que condições? Há boas condições para o trabalho feminino remunerado dentro de casa? Em termos de espaço para a execução do trabalho, de tempo exclusivo para as tarefas profissionais, estamos em pé de igualdade com as outras pessoas que estão trabalhando em casa, principalmente neste período de pandemia e isolamento social? Há equilíbrio nas condições de trabalho a partir de casa entre os homens e mulheres? Ou há sobrecarga de algum dos lados? E fora da pandemia, é esperado trabalho extra da profissional de letras por ela estar, teoricamente, “em casa”? Essas são questões sem solução e apenas reflexo da nossa cultura e sociedade? Perceber, refletir, debater e trazer à tona essas questões, a nível doméstico e coletivo podem ser também passos de formiga em direção à igualdade.

Não basta ser competente

Outra situação que pode representar um passinho a mais na estrada da igualdade é a questão de quem traduz o quê. Refletindo sobre a ideia de que o importante é a capacidade de quem traduz e não o seu gênero, acredito, contudo, que há textos que são como bandeiras ou marcos de uma época, situação ou condição, e que assim devem ser tratados. Há algum tempo li alguns livros publicados por uma importante escritora que trata profundamente do universo feminino. O ato de ler esses romances que relatam cenas, situações, sentimentos e ideias tão comuns a muitas mulheres teve um efeito especial sobre mim: me pôs a refletir, mais ainda, sobre a condição das mulheres nas suas próprias vidas e na história humana. As mulheres, nos livros da autora, eram sempre protagonistas, os homens, coadjuvantes. Dos nove livros que conheço dela, apenas um foi traduzido por uma mulher. Os outros oito, por dois homens diferentes. Eu gostei das traduções que li. Gostei mesmo, mas fiquei remoendo a questão: se tivessem sido traduzidos por mais mulheres, talvez esses textos tão emblemáticos se tornassem ainda mais próximos do universo feminino, talvez tocassem mais mulheres, ou as tocassem de um modo diferente ou quem sabe, até vendessem mais. Por que foram escolhidos homens para traduzi-los? Porque eram competentes. Não havia mais tradutoras competentes a quem os livros pudessem ser designados? São perguntas que podem parecer ingênuas, mas que refletem políticas, estereótipos e crenças que se refletem em questões de poder e afetam o mundo da produção de textos e, em última instância, a cultura e a sociedade.

Cada passo conta

A luta por igualdade, como se vê, não se faz apenas com assuntos de enorme importância, como o voto, se faz também com pequenos passos de igualdade que qualquer pessoa pode decidir dar, na sua profissão ou na sua vida pessoal. Se esse tipo de prática começar a fazer parte do quotidiano da vida de quem produz, traduz e revisa textos, quem sabe no futuro mais que perfeito este nosso tempo seja visto como um tempo de equidade e inclusão.

Roseli Dornelles dos Santos é tradutora, copidesque e lexicógrafa. Graduada em Biologia pela UFRGS, transferiu-se para São Paulo onde fez mestrado e doutorado na área de Lexicografia bilíngue da língua italiana. Traduz desde 2006, principalmente na área editorial. Escreve crônicas e poesias e se interessa por feminismo e meio ambiente.

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