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Entrevista Michel Teixeira

 

Chegamos à fase da ressaca da S02E02 das palestras da Translators101, mas também estamos na fase de preparação para os eventos exclusivos para assinantes premium que teremos em abril.

Um desses eventos será a oficina de tradução de jogos a ser realizada por Michel Teixeira, que trabalha como tradutor há 10 anos e já localizou grandes jogos em sua carreira. Enquanto os assinantes se inscreviam para o evento, Michel nos concedeu uma entrevista exclusiva e contou um pouco de sua entrada no mercado de tradução, de games e o que o ajudou a se estabelecer no mercado nesse ramo e em outros que trabalhou antes.

Veja a entrevista completa com Michel Teixeira abaixo.

 

Translators101- Como foi sua entrada no mercado de tradução de games? Qual era sua experiência prévia, seja na área de tradução ou na área de games?

Michel Teixeira – Entrei no mercado de games por gostar e entender de… futebol. Parece piada, mas não é. Minha mulher trabalha com tradução de games há alguns anos, e me avisou que a empresa dela estava procurando um editor de português brasileiro para um dos principais jogos de futebol do mercado. Entrei em contato com o responsável pelo projeto, fiz uma entrevista com ele e passei. Pode ser só uma impressão pessoal equivocada, mas acho que a maioria dos tradutores games a partir do inglês, por ter uma ligação muito forte com a cultura americana, acaba não tendo muito interesse por futebol. Assim, pode-se dizer que entrei no mercado por ser uma avis rara no meio.

Em termos de experiência, quando entrei no mercado eu já tinha quase dez anos de tradução e trabalhava principalmente com localização de conteúdos de marketing, jornalismo e tradução literária (ficção e não-ficção). Meu forte sempre foi o texto bastante fluente em português e, com a experiência em localização, não tive problemas em me adaptar às exigências do mercado de games, de produzir um texto traduzido interessante respeitando as exigências técnicas do mercado.

 

Qual foi o maior desafio que você enfrentou quando estava entregando seus primeiros jogos traduzidos?

Olha, o maior desafio da tradução de games é o contexto. Muitas vezes, temos segmentos com frases curtas, e não raro com uma palavra só. Muitos projetos de localização de games trazem, vamos dizer assim, uma “cartela” com informações sobre o personagem que está falando no jogo, o contexto da situação etc. Outros, porém, não trazem nada, e você tem que tentar descobrir, com base no que já traduziu, na natureza do jogo, como deve ser traduzida aquela frase ou aquele termo. No caso do primeiro jogo que eu traduzi, que era a narração e os comentários de um jogo de futebol, o maior desafio foi conseguir reproduzir os bordões e o vocabulário específico do narrador e do comentarista. Assisti a vários jogos com narrações de um e comentários do outro, para tentar reproduzir da melhor forma possível.

 

Como trabalhar com tradução de jogos mudou sua forma de vê-los ou jogá-los, se mudou?

Bom, aqui eu tenho uma confissão a fazer, eu nunca fui “gamer”. Meu interesse se limitava a jogos de futebol e corrida, não mais que isso. Depois de entrar no mercado, conheci muitos títulos novos e passei a entender muito melhor a mecânica dos jogos, ou seja, como eles são pensados e projetados para divertir e desafiar o jogador. O fato de não ser “gamer”, no entanto, fez de mim um defensor de uma ideia que, segundo a minha experiência pessoal, ainda não é tão permeável no mercado de videogames: que a equipe de tradutores e revisores deve ter não só tradutores-jogadores, mas também tradutores com qualidade literária, por assim dizer, cujo foco é a qualidade e a fluidez do texto final na língua-alvo. Acredito que é essa mescla que ajuda a produzir um texto que seja preciso em termos de mecânica de jogo, mas também divertido e atraente para o jogador.

 

O que é melhor para o tradutor iniciante: buscar se especializar em tradução de games desde o começo da carreira ou tentar entrar na área aos poucos, já com experiência em outros ramos da tradução?

Olha, isso realmente depende do histórico de cada um. Eu conheço gente que entrou no mercado de videogames porque tem paixão por jogos, e outros, como eu, que entrou pela experiência em tradução. Então, se você já é “gamer”, pode se especializar na área, mas sem deixar de lado o conhecimento tradutório geral, aprender as características de um bom texto em português, lendo muito bons autores brasileiros. Isso eu acho essencial, o Brasil tem grandes escritores em todos os gêneros literários, e conhecer esses autores melhora o texto de qualquer um. Não dá para abrir mão do estudo e da atualização permanente. O tradutor não pode parar, tem sempre que estar lendo, se atualizando, seja fazendo cursos, seja se inteirando da realidade dos mercados em que atua. Em tradução, quanto mais conhecimento, melhor.

 

Se você só pudesse dar um conselho para alguém que você está ajudando a entrar nessa área, qual seria?

Acho que eu repetiria o que disse aí em cima. Tradutor precisar ler muito, e ler textos em português. Eu acho que esse é o maior gargalo na tradução, encontrar tradutores que tenham um bom texto em português. Quem tem isso, tem lugar no mercado. E, especificamente para quem busca o mercado de videogames, é tentar ser o mais visível possível para o mercado. Faça cursos na área, vá a eventos, palestras, congressos, participe de comunidades de tradutores em redes sociais, seja de videogames, seja de outras áreas, inscreva-se em sites voltados para o mercado de tradução, como o ProZ e o Translators’ Café, procure se informar sobre quais são as principais empresas do ramo de viedogames, enfim, corra atrás, busque absorver o máximo possível de informações e faço de tudo para se tornar visível. Quando as pessoas começam a conhecer você pelo nome, fica mais fácil conseguir oportunidades.

 

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