Tradução Não É Bagunça — Um extrato das principais ideias

Data de publicação: 06/10/2021, 10:08

No dia 24 de agosto de 2021, em reação a alguns anúncios veiculados em redes sociais que prometiam “Formação de tradutores em 21 dias” ou “Seja revisor de traduções sem precisar conhecer outro idioma”, um grupo de profissionais das áreas da tradução e interpretação, além de representantes de entidades como a ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), o SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores), a APIC (Associação Profissional de Intérpretes de Conferência), se reuniu para marcar posição pela ética na profissão e esclarecer algumas questões sobre formação, reputação e profissionalismo, além de orientar colegas que talvez tivessem alguma dúvida sobre a idoneidade e qualidade desses “cursos milagrosos” que vinham sendo oferecidos até então.

A reunião, convocada e coordenada pelo William Cassemiro (que já presidiu a ABRATES e hoje comanda a Translators101), foi transmitida em uma live no YouTube que você pode assistir clicando neste link) e acompanhada por vários tradutores. São mais de duas horas de conteúdo e conselhos de gente competente e tarimbada nas áreas da tradução e interpretação. 

Entretanto, se você quiser conhecer algumas das principais ideias expostas pelos participantes, ou se não puder assistir à live por completo, nós elaboramos um extrato com as principais ideias apresentadas por cada um dos colaboradores. Confira com a gente as ideias e opiniões desse time incrível de profissionais que já atua no mercado e tire suas dúvidas sobre qualquer “proposta milagrosa” que anda circulando pelo universo das redes sociais.

 

William Cassemiro, ex-presidente da ABRATES e diretor da Translators101

Ética. Cinco letras. Foi essa palavrinha que me fez chamar essa live com entidades, profissionais e agências para falar sobre a importância da formação e das arapucas que surgem a cada dia. 

“Formação de tradutoras em 21 dias”; “Seja tradutora sem fluência em outro idioma”; “Revisar tradução do Google Translate para publicação em revista científica”; “Oferecer tradução juramentada sem ser TPIC”. As três primeiras coisas são mentiras da pior espécie. A quarta é um pouquinho mais grave; é crime.

E às pessoas que buscam oferecer caminhos milagrosos e atalhos perfeitos para alguém se tornar tradutora profissional... a essas pessoas eu também tenho uma palavrinha com cinco letras: BASTA.

A ética não participa no vocabulário desses charlatões. Compromisso para sua formação, então? Nem um pingo. O único compromisso que assumem é com as próprias contas bancárias.

Eu e todas as pessoas e entidades que aqui estamos hoje entendermos que a profissão não é regulamentada e qualquer pessoa pode dizer tradutora, mesmo sem ter um mínimo de capacidade para isso. Também entendemos que, por esse motivo, muitas pessoas veem a tradução como uma forma de se sustentar em um momento de desemprego. E por terem conhecimento em outro idioma, mesmo que rudimentar, pegam esses cursos em busca de alguma remuneração; afinal, os boletos não param chegar.

Não se deixe enganar. Ninguém é profissional de sucesso somente por fazer um curso rápido. As entidades e profissionais que estão aqui vão dizer agora o que podemos fazer para ajudar vocês.

 

Gio Lester – presidente da ABRATES — www.abrates.com.br

Ser tradutor não é uma aventura de dois ou três dias. No meu caso, a aventura já dura 40 anos; e, neste momento, estou tomando dois cursos. Imagine, 40 anos de profissão e eu não paro de estudar. Se você quer realmente ser bom naquilo que faz, [isso] é uma coisa que não acaba nunca.

É por isso também que nós oferecemos o serviço de mentoria, criado pelo William, e que levamos adiante. Nós queremos criar profissionais de qualidade para ocupar o espaço que vamos deixar, as vagas que vamos criar quando nos aposentarmos.

Portanto, preste atenção a quem faz ofertas para você. Pense no seu objetivo e faça questionamentos. Fazer perguntas é uma das melhores maneiras de identificar onde é que estão as falhas, as informações falsas e errôneas. E para que você consiga manter-se sempre no passo ético.

 

Ana Beatriz Dinucci – presidente do SINTRA — www.sintra.org.br

A tradução malfeita mata. Isso não é exagero. Eu recebi, há alguns anos uma tradução para revisar. Quando fui olhar a tradução, tinham até marcado algumas coisas que acharam estranho. O que mais me assustou foi que a pior passagem da tradução não estava marcada. E essa passagem ia matar pessoas.

Era sobre os procedimentos para o caso de acidente ou vazamento numa usina nuclear. É o seguinte: os passos um, dois e três, sozinhos, já conseguem suspender um vazamento por duas horas até a chegada da nova equipe de emergência. Porém, em se tratando de energia nuclear, as medidas de segurança devem ser redundantes, ou seja: tem que seguir os três passos. A pessoa que traduziu, a aventureira que traduziu, viu a palavra “redundância” e traduziu assim: os passos um, dois e três, sozinho são capazes de sustar o vazamento. Escolha um deles apenas, pois fazer os três seria redundante. Isso é extremamente grave.

Então eu fico assustada quando eu vejo o tradutor dizendo que vai formar outro em 21 dias, dizendo que prazo não importa, que ele pode traduzir de um idioma que não fala tão bem se for parecido com o idioma que ele fala, que o Google está aí mesmo para ajudar.

Essa pessoa que oferece essa fórmula mágica pertence alguma associação? Pesquisem isso. Como é o Linkedin desse coach milagroso? O que essa pessoa faz? Ela realmente vive de tradução ou vive dessas falsas promessas?

Uma oficina é um acréscimo à sua formação de tradutor, mas uma formação é longa; ela envolve muito material, envolve provas.

 

Denise Araújo — Presidente da APIC — www.apic.org.br

A gente quis participar dessa iniciativa justamente por defender a nossa categoria. Quero falar sobre o site da APIC – www.apic.org.br. Se você for ao nosso FAQ, vai descobrir respostas para a maioria das suas perguntas. Na parte sobre os documentos tem modelo de contrato, tem tudo sobre as boas práticas. Como você deve trabalhar, durante quanto tempo se trabalha em equipe, durante quanto tempo você pode trabalhar sozinho... tudo está no site da APIC. Não é só para quem é membro, porque a gente defende essas boas condições para todos.

Se informe. Procure saber mais. Você precisa ser um bom profissional, e para ser um bom profissional, não dá para se formar em 21 horas, como as colegas falaram. Uma formação prepara para a profissão. Encorajo vocês a procurarem informação no local certo. Contém com a APIC, porque nós estaremos sempre aqui para ajudar vocês.

 

Amarilis Okida — Professora e coordenadora da Interpret2B  —  www.interpret2b.com

Nosso curso dura doze meses porque dá ao aluno a oportunidade de experimentar várias áreas dentro da tradução, de conhecê-las e de sentir o mercado.

O que o nosso aluno mais vai ouvir: ética. Você não pega um trabalho que não está preparado para fazer, não assume um trabalho dentro de um prazo que você não vai dar conta. Não assume um trabalho que esteja num idioma que você não saiba.

Que tipo de profissional você quer ser? Não existe atalho, gente. Uma casa não se constrói pelo telhado e traduzir não é meramente transportar as palavras de uma língua para outra. É organizar experiências, pensamentos e particularidades de diferentes culturas, e isso requer muita técnica e tempo de aprendizado. É algo que a tradução automática não faz. Então, colocar o texto em um software ou em páginas que façam a tradução automática e “dar uma ajeitadinha” nesse texto não é traduzir, não é revisar. E nós percebemos a voz dessa inteligência artificial. Se nós percebemos, o seu cliente também vai perceber.

 

Ana Saldanha – Professora e mentora na Universidade Autónoma de Lisboa. — www.autonoma.pt

Esses trambiqueiros, como vocês dizem no Brasil, são só “criaturas”. Eu já vi as maiores barbaridades e continuo a ver. Portanto, chamo a atenção de toda a gente que é iniciante ou que está a estudar, que está em um curso: por favor, não caiam no conto do vigário dessas criaturas, que, inclusivamente, compartilham tabelas de preços que incluem o meu país.

Eu olho para aquilo e pergunto: onde é que estão esses preços? Não existem aqui. [Eles] Veiculam informações falsas, enganam as pessoas, prometem mundos e fundos e entregam mentorias com uma ideia completamente errada: que nós andamos aqui a pular entre nuvens cor-de-rosa, que somos todos milionários e que temos uma Ferrari parada aqui na nossa casa.

Não vou ser hipócrita: a tradução é uma profissão lucrativa. [Mas] nós não abrimos a janela de casa e o dinheiro entra pela casa adentro. Eu já cheguei a trabalhar toda a noite e todo o dia para acabar um trabalho. Temos que ter responsabilidade sobre aquilo que fazemos.

 

André Ribeiro – Tradutor e empreendedor — www.tradutorempreendedor.com

A minha sugestão maior é que nunca busquemos atalhos. O conhecimento é o caminho mais seguro. E quanto a programas de mentoria, é sempre importante buscar informações sobre aquela pessoa. O mentor tem que ser alguém que está onde nós queremos chegar. Não podemos ser mentorados ou treinados por quem está em uma situação que não é aquela onde nós queremos chegar.

Temos que buscar informações sobre esse profissional, saber quais são os resultados que ele teve, quais foram os sucessos e fracassos que esse profissional teve, pois a vida não é só feita de sucessos; nós temos nossas quedas também.  

 

Andressa Gatto — Tradutora e intérprete — www.andressagatto.com

Você faria uma cirurgia se soubesse que o cirurgião não é formado por uma instituição de qualidade? Você moraria num prédio que foi construído por uma pessoa, um engenheiro, que fez apenas um curso que prometia que ele entraria no mercado de trabalho, digamos... em 21 dias ou seis meses?

Então por que você acha que, para ser um profissional de tradução, precisa apenas saber mal e porcamente um segundo idioma? Por que essas pessoas que prometem mundos e fundos na internet não são recomendadas por profissionais de qualidade?

Eu fui entendendo que para ser uma profissional bem-sucedida, e não apenas uma tradutora, eu precisava estudar sempre. Preciso me reciclar e preciso, mais do que ser vista, ser lembrada com uma pessoa de qualidade e talento.

E para quem não conhece a nossa carreira, a grande maioria dos trabalhos que a gente recebe é conquistada por meio de indicação de colegas, pessoas que atestam o nosso talento e qualidade. A gente não constrói uma carreira através de propagandas do Facebook.

Se você for na onda desse pessoal que fala que primeiro é preciso desenvolver o seu marketing e depois aprender o ofício, você vai prestar um péssimo serviço e não vai ser chamado de novo para nenhum outro, porque a palavra corre. E corre rápido.

 

Bruno Murtinho —High5 Tradução e interpretação — www.high5trad.com.br

Você quer arrumar um cliente rapidinho e depois entrar pelo cano? Ou você quer se dar bem na sua carreira a longo prazo?

Você pode até conseguir um trabalho se não estiver preparado, mas esse cliente não vai te contratar por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde a falta de é qualidade do seu trabalho, por conta da sua falta de experiência, vai sobressair.

Agora, se preferir a segunda opção, você tem que se preparar com gente séria. E não só no começo, porque estudar é algo que vai perdurar ao longo de toda sua carreira de tradução

Na High5, com as minhas sócias, a gente tem um compromisso. Todo ano a gente tem que fazer algum curso de reciclagem, mesmo que seja em alguma área da tradução que não esteja acostumado a fazer. Isso dá uma nova perspectiva sobre o nosso traduzir.

É nos cursos sérios que eu faço e nos congressos que eu participo que fui conhecendo os colegas de profissão. E uma realidade nesse universo de tradução e da interpretação é que uma boa parte dos trabalhos que chegam, vêm a partir de convite ou de indicação dos colegas. A gente é concorrente, mas é colega também.

E é isso que a gente quer evitar: que quando as pessoas falem de tradução, que elas não linkem isso a uma categoria que é sinônimo de picaretagem e de maus profissionais.

 

Cátia Santana — TRADUSA — www.tradusa.com.br

O mercado de tradução é muito amplo e essas habilidades podem ser adquiridas tanto com uma formação formal quanto pelo autoestudo; muitos profissionais que vêm outras áreas não têm uma formação em tradução. A gente conhece vários profissionais renomados que estão há vários anos no mercado e que não têm necessariamente uma formação em tradução. Mas isso não significa que essas pessoas caíram de paraquedas, que não estudam e não se aprimoram na tradução.

Essa não-exigência de formação abre o leque para que pessoas divulguem cursos e mentorias que promovem uma imagem distorcida da tradução: que qualquer pessoa que saiba outro idioma pode ser tradutor. E isso não é verdade.

Algumas pessoas devem estar pensando: “Ah, mas vocês falam isso porque  promovem cursos; vocês querem que o curso de vocês venda e [que não haja espaço para] outras pessoas que estão surgindo no mercado agora; vocês querem denegrir a imagem dessas pessoas”.

Existem iniciativas gratuitas também. Temos os barcamps, temos profissionais que dão dicas nas redes sociais, que escrevem artigos. Procurem estudar, investigar a reputação desses profissionais e entrar em contato com essas pessoas. Tem muito profissional estabelecido que está disposto a oferecer orientação para os iniciantes e para os estudantes.

 

Ciça Lopes – Ipsis Litteris — www.portalipsislitteris.com

Eu fico pensando... cada vez que eu vou lecionar, ou que vou mentorar, eu estudo. Então, são 35 anos, 8 meses, 3 dias e algumas horas estudando para traduzir, revisar e lecionar. Não é uma brincadeira.

Parece que essa tendência de querer fazer a formação em poucos dias ou meses é uma tendência. E é por isso que a gente está aqui; a gente precisa dar um basta.

Tradução não é bagunça. E a gente tem que colocar um ponto final nessa história, senão os meus 35 anos como professora da área e de todos os colegas que vocês já ouviram e vão ouvir aqui... tudo vai por água abaixo, é jogado no lixo como se a gente não tivesse tido o cuidado especial de estudar para formar.

 

Cristiane Tribst – Tradutora juramentada e engenheira — www.ctribst.com.br

A minha primeira formação foi em engenharia elétrica. No início de carreira como engenheira eu precisei de uma tradução. E nesse processo eu descobri que era uma coisa que eu adorava a fazer, e fiquei encantada.

Em seguida, surgiu a possibilidade de trabalho em uma agência. No entanto, embora tivesse uma sólida formação em inglês, adorasse línguas em geral e português em especial, e também tivesse a formação técnica que me garantiria a habilidade para fazer aquela tradução, eu sabia que eu não tinha a formação adequada. E eu fui buscar uma formação sólida. Encontrei a associação Alumni. Tive uma formação de primeira linha, conheci meus primeiros colegas e fiz amizades que já duram uma vida.

Não existem milagres nem dinheiro fácil. Existem esforços corretos, aprendizado contínuo e muitas portas certas para começar. Existem informações sérias, colegas sérios e empresas sérias. E cada um deles com muita disposição para apontar a direção certa a seguir.

 

Damiana Rosa – Escola de Tradutores — www.escoladetradutores.com.br

Quando a gente procura um profissional em qualquer área, a gente se sente seguro quando esse profissional tem formação e competência para desenvolver suas atividades. Acho que ninguém gostaria de estar doente e passar com um médico que não fosse formado, que não tivesse especialização para exercer a atividade dele.

A mesma coisa é a tradução. Então, se a gente deseja crescer na profissão, precisamos nos especializar e melhorar a cada dia poder passar essa segurança para o nosso cliente, porque a formação traz conhecimento; e o conhecimento traz ferramentas que nos tornam solucionadores de problemas.

Isso leva tempo. Infelizmente, não existe uma varinha mágica que possa realizar isso para nós. Mas nós temos colegas que já abriram campos para nós, tanto na teoria da tradução quanto no mercado, e que podem trazer esse conhecimento numa forma muito mais fácil.

É muito bom ter alguém que possa nos ensinar. É isso que vai nos tornar competentes para exercer a nossa profissão.

 

Dilma Machado – ESTRADA - www.cursoestrada.com.br

A minha área é pouco divulgada e conhecida; Tem muita gente não sabe que existe tradução para dublagem. E é uma área em que a gente tem se deparado com muitos desses charlatões.

Na minha área tem aquela coisa de todo mundo querer vender o “glamour”. Você vai ter o seu nome na tela, você vai ficar famoso. Eles exploram esse glamour justamente para enganar.

Existe essa imagem que eles criam: “você vai traduzir as suas séries favoritas”. Gente, não tem como você traduzir a sua série favorita ou o seu filme favorito porque eles já foram traduzidos!

Eles investem muito no marketing, mas não investem em educação. Não é simplesmente ser fã; é ótimo gostar de dublagem, mas não é só isso o critério; não é o único pré-requisito.

Depois que você termina o curso da Estrada, tanto de legendagem quanto de dublagem, a gente continua ensinando. Eu tenho um grupo de tradução para dublagem onde todo mundo está ensinando para todo mundo; a gente tira dúvidas de quem quer fazer, de quem está fazendo um trabalho.

Eu não posso ser professora só durante o tempo do curso. Pode ser daqui a 10 anos, mas você vai ter contato comigo; é importante o aluno ter contato com o professor sempre que possível.

 

Ivar P. Junior — Rook-Produção de Textos, Tradução e Localização — www.rook.net.br

Muitos cursos que existem hoje, independente da duração, não existiam há 10 ou 15 anos. Hoje em dia é muito fácil ter acesso a esses cursos; a tecnologia trouxe ótimas oportunidades, ótimos cursos... mas essa facilidade de acesso também atraiu uns picaretas.

As minhas referências para saber se uma oficina, uma palestra, se um curso de outra pessoa é bom, se o conteúdo é válido ou não, sempre foram outros tradutores. Especialmente aqueles que vieram antes de mim, que são mais experientes. Isso vem desde meu primeiro emprego na tradução. Quem me orientou e treinou já falava: “olha, isso aqui é legal”, ou “isso aqui não é legal”.

O meu conselho: se a coisa parece boa demais para ser verdade, talvez seja. Consulte outros tradutores, converse com outros colegas para que eles ajudem a saber se a pessoa que está disponibilizando esse material, esse curso, realmente sabe do que está falando. Se não é só um aventureiro.

Tudo isso vai servir para que a gente desenvolva e deixe bem afiado o nosso Detector de Picaretas. Utilizem essa ferramenta para não caírem nesse tipo de cilada.

 

Jorge Rodrigues – Representante do PROZ no Brasil — jorgerpr.wordpress.com

No início 2020 nós tivemos uma queda do valor do real em relação às moedas fortes de mais de quarenta por cento. Com isso, certos “empreendedores” viram uma “janela de oportunidade”: a venda de cursos, mentorias, consultorias, coaching ou raio que os parta prometendo o impossível, aproveitando o desespero (na maioria dos casos) e também a ganância (em alguns casos) de pessoas em busca de renda extra rapidamente.

Isso, na minha humilde opinião, chama-se estelionato, o velho e bom artigo 171 do Código Penal.

É claro que nem tudo é picaretagem. Tem muita gente séria, muita gente idônea qualificada e reconhecida na profissão desenvolvendo projetos excelentes.

Quando forem escolher uma formação, analisem quem está dando a formação. Qual é a bagagem da pessoa, qual a postura ética e profissional, como ela se comporta em público e nas redes sociais; que tipo de recomendações e práticas ela prega. Isso vai dizer muita coisa sobre o curso ou a mentoria que a pessoa oferece. É o princípio de “pelo fruto se conhece a árvore”

 

Paloma Bueno — Intérprete de Libras - www.paloma.trd.br

Uma proficiência não se alcança em alguns dias ou semanas; [Para adquirir] proficiência, a habilidade e a competência em tradução e interpretação, especialmente falando de Libras, a Língua Brasileira de Sinais, são anos de estudos para adquirir fluência e depois competência tradutória, mais as competências técnicas específicas da área. Então, não se forma um intérprete de Libras em poucos dias ou semanas. Isso não é possível.

 

Rafa Lombardino — Tradutora, professora e autora — www.rafalombardino.com

Procurem [saber] também sobre os pseudoformadores — esse pessoal que está só ganhando dinheiro às suas custas. Você paga e vai aprender o quê com essas pessoas? Aprender a fazer coisa errada. Veja se essa pessoa está preparada para te preparar.

Eu acho que o problema é o culto da personalidade. São pessoas... é uma minoria, mas que fala muito alto. E a gente tá vendo isso em todos os setores da nossa vida: social, econômico, político. A pessoa sobe no palco, fala que faz e acontece... é o culto da personalidade. E isso só aumenta por causa da tecnologia, porque hoje é imediato: Qualquer um pode falar o que o que quiser e atingir várias pessoas.

Um dos principais efeitos colaterais é a síndrome do impostor: você vai investir nessa formação com uma pessoa equivocada e depois não consegue fazer o que essa pessoa prometeu. E aí você se acha uma porcaria. “O que eu fiz de errado?” Você pode cair nessa e depois demora para se recuperar.

 

Ricardo Souza — Ex-presidente da ABRATES — www.souza.trd.br

A nossa profissão não é regulamentada, mas é altamente regulada. Existe uma série de normas internacionais que regulam a nossa profissão, e essas normas estão chegando agora no Brasil. As normas brasileiras estão saindo, mas as internacionais existem há alguns anos; quem quiser, pode pesquisar [sobre as] normas ISO 17100 (da tradução) e ISO 18841 (da interpretação).  Ao todo, são 19 normas, entre as já publicadas e em [processo de] publicação.

Todas elas abordam o que é necessário para um tradutor ser considerado um tradutor e para que o produto que ele oferece ao mercado seja considerado um produto de qualidade.

Entrar na profissão não é tão difícil, mas se manter nela é muito, muito difícil. Um tradutor profissional investe pelo menos um mês de remuneração por ano em reciclagem, formação compra ou manutenção de ferramentas — pelo menos um mês. E outra coisa: sim, nós ganhamos de dólar e em Euro, mas os nossos custos também são em dólar e euro!

Este mês, só um curso que eu fiz custou 100 euros. É um curso de 4 dias de uma instituição bastante conhecida. O investimento que a gente faz é muito alto; as ferramentas estão caras. O MemoQ, por exemplo, para nós, brasileiros, custa uma média de 400 euros; um Trados, quase mil dólares. Então, se prepare para separar uma parte da sua renda para poder reinvestir em você e no seu material de trabalho.

 

Val Ivonica – Vice-presidente da ABRATES — www.traducaoviaval.com.br

É aquilo que o pessoal já falou: procurem a gente, procurem quem está há mais tempo na estrada. Não interessa, para a gente, esse pessoal não ensinando quem está começando.

Se é para ter gente nova no mercado, e isso é a coisa mais natural do mundo, que a gente nivele o mercado por cima. E se é para eu concorrer com alguém, que seja com gente boa, com gente de qualidade; com quem não vai brigar comigo por causa de preço.

Quando a gente está exposto, está todo mundo vendo. Os colegas são possíveis clientes. Tem clientes de agência também, clientes de editoras; eles estão nesses grupos todos. E estão vendo a gente.

O maior bem que o profissional tem é o seu nome. Então eu quero que, em qualquer lugar que eu vá, ninguém fale “pô, aquela Val é uma sacana. Não entrega as coisas, promete e não cumpre, só sacaneia todo mundo”. Não! É o meu nome, é como eu apareço.

Vamos cuidar do nosso nome. vamos associar o nosso nome a outros bons nomes e tirar os nomes ruins das criaturas das trevas do nosso caminho, do nosso mercado.

 

Andréa Gonçalves Pinto – Transmaster Traduções — www.transmaster.com.br

O tradutor, antes de tudo, é um pesquisador. A gente pesquisa PMs, a gente pesquisa glossários, a gente pesquisa a internet em busca do melhor termo e da melhor expressão. Então por que não pesquisar o melhor curso, a melhor mentoria, para a gente não cair em ciladas?

Do ponto de vista de uma agência de serviços linguísticos como a Transmaster, o que a gente valoriza no profissional é boa formação, se a pessoa fez um curso reconhecido — seja na área específica ou não; bom conhecimento dos idiomas, agilidade na comunicação, comprometimento com o projeto que aceitou, cumprimento de prazos, ética e postura profissional.

Não é só agir com transparência e honestidade com os clientes, mas também tomar muito cuidado com o que você escreve e publica na internet, nos grupos, etc; é muito ruim para a imagem de um tradutor quando ele fala mal de clientes, reclama de projetos, afirma que joga projetos no Google Translate e só revisa depois, e outras coisas desse tipo.

Para construir uma reputação a gente demora anos. E para destruí-la, basta você fazer uma dessas coisas 

Gostou? Então aproveite e assista à live “Tradução Não é Bagunça” na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=UX2TprAADSw

 

— Ivar Jr e Luciana Boldorini