Tradução de boardgames

Data de publicação: 16/08/2021, 10:13

Hoje, trazemos a vocês o primeiro de uma série de artigos escritos pelos tradutores profissionais Luciana Galeani Boldorini e Ivar Panazzolo Jr. Luciana e Ivar falarão sobre tradução de boardgames, uma área ainda pouco explorada por tradutores profissionais.

 

A localização de boardgames e o trabalho do tradutor – parte 1

 

Existe um nicho no mercado de tradução que talvez tenha passado despercebido para a maioria dos tradutores, mas que vem crescendo dentro da área do entretenimento: a tradução de jogos de tabuleiro. Ou, mais especificamente, a localização de jogos de tabuleiro. Que tal conhecer um pouco do que acontece nos bastidores da produção desses jogos no Brasil?

 

Créditos da Foto: Loja BG Express

 

Quando pensamos em jogos de tabuleiro, algo nos remete a infância, ao lúdico. Lembramos de sentar em volta de uma mesa, com amigos no fim da tarde ou com os primos nas férias e passar horas nos divertindo (ou até nos desentendendo) em volta daquele tabuleiro surrado. Jogávamos “O Jogo da Vida”, “Ludo”, “Damas”, “War”, entre outros jogos consagrados entre as crianças dos anos 80 e 90. O lúdico sempre atraiu essa faixa etária por suas características. A criança tem tempo de brincar, sentar com os colegas e “perder tempo” com brincadeiras.

 

Esse estigma do lúdico ser ligado somente à infância evoluiu. Evoluiu muito e rapidamente. Hoje temos editoras brasileiras que publicam jogos de complexidade infinitamente maior, se comparados àqueles com os quais nós brincávamos. São imensas caixas de até 10 quilos de componentes entre miniaturas, tabuleiro, cenários e baralhos diversos. Os jogos podem ser competitivos, onde vence quem cumpre o objetivo primeiro, ou podem ser cooperativos, onde o grupo de jogadores tem um objetivo comum e tentam vencer o jogo. E podem até mesmo misturar os dois tipos, sendo cooperativos e competitivos ao mesmo tempo. Os temas são variados; há jogos com temas que vão de ursinhos devastadores de plantações de bambu até invasões de zumbis tóxicos, passando por pandemias complexas a serem curadas no mundo todo. Ou seja, a ludicidade saiu do domínio das crianças e alcançou a mão de jovens e adultos.

 

Os jogos de tabuleiro no Brasil, hoje

 

De acordo com o site da revista Forbes, o mercado de boardgames brasileiro movimentou cerca de R$ 665 milhões no ano de 2019. Uma boa parte desse valor se deve aos lançamentos de versões localizadas de jogos que são sucesso de público e de vendas nos Estados Unidos e também na Europa, que foram licenciados para serem traduzidos e publicados em português brasileiro. E podemos incluir nessa conta também os card games (que incluem títulos como Magic: The Gathering e Pokémon) e RPGs, que já estão disponíveis em português por aqui desde meados da década de 1990 e atualmente incluem títulos como a quinta edição de Dungeons & Dragons, além de títulos como Savage Worlds e The Witcher RPG. Ou seja: juntamente com todos esses lançamentos, foi preciso lançar mão do trabalho de tradutores, já que todos esses jogos analógicos contêm muito material em texto que precisa ser localizado para o público brasileiro.

 

Créditos: Rafael Nery/Gamerview

 

Em um produto caro, qualidade é o mínimo

 

Só que nem todas as águas são tranquilas para o empreendedor navegar —especialmente no Brasil. Os jogos de tabuleiro modernos, que são mais complexos e mais elaborados, vêm com um agravante: o preço. O brasileiro paga hoje de R$200 a R$1.000 em um desses boardgames. Há jogadores que também são colecionadores e há quem curta fazer trocas online. Ou seja, é um mercado muito rico e ativo, com o detalhe marcante de ter um público-alvo extremamente exigente quanto à qualidade do que consome. Quem quer qualquer defeito em um produto tão caro? É o mesmo que comprar uma Ferrari e ela vir com pequenos amassados na lataria. Da mesma forma, esse público é marcado pela exigência e pelo imediatismo e não têm nenhum receio de recorrer às redes sociais para reclamar dos produtos comprados. E este é um dos principais desafios (e, ao mesmo tempo, uma das principais oportunidades) para os tradutores: ainda são muito poucos os tradutores especializados na localização de jogos de tabuleiro. E se a situação já é complicada, há agravantes também: Uma boa tradução tem o seu custo, que aumenta ainda mais com a necessidade de contratar outros profissionais do texto como revisores e especialistas em controle de qualidade. E, infelizmente, alguns dos publishers nacionais acabam eliminando algumas dessas etapas ou contratando pessoas sem a devida competência para cuidar da localização dos seus jogos. Mas isso é assunto para ser abordado num artigo futuro.

 

Para a qualidade, tradutores profissionais

 

E onde entra o tradutor? Isso mesmo, na qualidade do produto. Há um público que é exigente por natureza e que, mesmo em meio a uma crise econômica e uma pandemia, vem crescendo bastante aqui no Brasil.  Também é um público que não lê em outros idiomas e prefere comprar as versões nacionais. Por isso, procura consumir os produtos lançados pelas editoras brasileiras ao mesmo tempo que as mantém sob olhares bem meticulosos.

 

O profissional que trabalha com esse nicho, além de tradutor, tem que ser um tanto quanto gamer também. Precisa ser um especialista? Não necessariamente, mas deve ter jogado alguns desses jogos modernos de tabuleiro. O mesmo vale para tradutores de jogos eletrônicos, por exemplo. Se o tradutor não conhece o produto com o qual está trabalhando, fica difícil ter um resultado satisfatório.

 

O tradutor deve, preferencialmente, estar antenado nas tecnologias e inovações de trabalho. Assim como as agências de tradução, a maioria dos publishers de jogos de tabuleiro já trabalham com os projetos montados dentro das CAT Tools (as Computer-Assisted Translation Tools – Ferramentas para Tradução Auxiliada por Computador) e a localização pode ser dividida entre mais tradutores ou revisores. E se o profissional não souber usar essas ferramentas, sua chance de ser selecionado para integrar a equipe de localização diminui bastante.

 

Saber trabalhar em equipe: fundamental

 

E por falar em trabalho em equipe, quando trabalhamos em um projeto com mais tradutores, o mais importante é deixar o texto o mais uniforme possível para o leitor final. Por mais que escondamos nossa autoria quando traduzimos, sempre deixamos algumas marcas no texto. Seja por escolha de palavras, seja por estilo próprio… o importante é deixar o texto o mais uniforme possível. Especialmente se o jogo de tabuleiro em questão tiver expansões; neste caso, é imprescindível a construção e manutenção de um bom glossário.

 

A importância dos glossários

 

Quando um jogo de tabuleiro é localizado, existem alguns termos comuns que são utilizados em praticamente todos jogos do mercado ou de um mesmo estúdio. Vejamos alguns exemplos no par inglês-português:

 

  • Core set — Jogo base
  • Figure — Miniatura
  • Tile – Peça
  • Token – Ficha ou Marcador (dependendo do jogo)
  • State — Condição
  • Contents — Componentes

 

Além desses termos mais gerais, cada jogo (e suas respectivas expansões) utiliza um glossário específico, adequado ao produto e ao universo em questão. Vejamos alguns termos específicos usados no jogo Zombicide, junto com as devidas traduções:

 

  • Game tiles — Mapas de jogo
  • Zombie spawn token — Ficha de entrada de zumbi
  • Linha de visão — Campo de visão
  • Ranged combat — Combate de alcance
  • Melee Combat — Combate corpo-a-corpo

 

E os nomes específicos para os tipos de zumbis:

 

  • Walker — Lerdo
  • Fatties — Balofos
  • Runners — Corredores
  • Abomination — Abominação

 

Crédito: Galápagos Jogos

 

Esses termos são recorrentes no manual do jogo, nas cartas especiais, nos tabuleiros e em outros componentes; por isso, é imprescindível que estejam padronizados para que os jogadores saibam exatamente quais regras devem utilizar e a que tipo de componente específico o texto do jogo se refere.

 

Preparar um glossário de termos ajuda tanto na uniformidade de termos usados no texto quanto nos projetos em equipe. Os glossários diminuem o tempo de pesquisa durante a tradução e evitam conflitos e dúvidas sobre nomes de personagens, regras, mecânicas do jogo ou termos específicos, por exemplo. 

 

E o trabalho continua!

 

Ah! Também vale ressaltar que os glossários são recursos fundamentais em jogos que têm expansões. Expansões são as continuações ou aventuras complementares que podem ser lançadas depois do jogo-base (o “jogo principal”); assim, muitos dos elementos que apareciam no jogo-base são utilizados ou mencionados novamente nas expansões. O glossário bem organizado e “alimentado” ajuda tanto a equipe de localização quanto os jogadores: do lado do tradutor, poupa tempo e ajuda a padronizar todo o universo daquele jogo. E, para o público consumidor, faz com que seja mais fácil assimilar e jogar uma expansão, sabendo que os termos ali vão corresponder exatamente àqueles que foram usados na tradução do jogo-base. Isso é ainda mais importante se considerarmos que o jogo-base e suas várias expansões podem ser traduzidos por equipes completamente diferentes.

 

Crédito: Galápagos Jogos

 

Outras características da localização dos boardgames:

 

Bom, você já deve ter visto que o tradutor precisa ter certos conhecimentos e cuidados quando embarca nesse mundo dos jogos de tabuleiro. Além daqueles já citados, é importante também se ater a um manual de redação e estilo, se a empresa ou agência o tiver (e sugerir a criação ou adoção de algum manual, caso o cliente não tenha); manter sigilo em relação a determinados produtos ou projetos (às vezes há a necessidade de assinatura de contratos de sigilo, pois existe uma toda uma estratégia por trás da campanha de lançamento do produto, além das exigências dos criadores do jogo); respeitar os prazos estabelecidos por ambas as partes; e uma das coisas mais importantes: manter canais de comunicação abertos com os gerentes e outras partes envolvidas no projeto, com relações cordiais e respeitosas para o bom desenvolvimento do trabalho — mesmo que haja discordâncias entre os membros da equipe (como no caso de escolhas de termos, definição de prazos ou do fluxo de trabalho, por exemplo).

 

E a nossa experiência?

 

Nós, Luciana Galeani Boldorini e Ivar Panazzolo Junior, atuamos na área de localização de jogos de tabuleiro desde 2018, trabalhando com produtos da Galápagos Jogos que foram trazidos para o Brasil. Apesar da popularidade, ainda é um campo que deve crescer muito nos próximos anos, tanto em termos de presença no mercado como em espaço e oportunidades para os tradutores. Nós acompanhamos a evolução desse mercado e garantimos: tem muito mais coisa a ser debatida e desenvolvida. E vamos falar sobre tudo isso também na próxima parte deste artigo: oportunidades e desafios para tradutores, estilos de texto e algumas outras surpresas que ainda estão guardadas. Nos vemos de novo daqui a algumas semanas!

 

— Ivar Jr e Luciana Boldorini