Tradução: bico ou profissão?

Data de publicação: 22/09/2021, 10:22

Reflexão para quem quer trabalhar traduzindo

 

O biênio 2020-21, sem dúvidas, está surpreendendo a todos. A pandemia da covid-19 desorganizou a vida social e mental do mundo; sobreviver, adaptar-se e reinventar-se são os imperativos do momento.

No cenário em que o modo remoto se tornou a opção de produção mais segura, a tradução (que já estava em alta antes do coronavírus) atrai cada vez mais interessados, via de regra, ansiosos para começar a ganhar dinheiro sem sair de casa.

 

Tradução em alta? Pratique a profilaxia do mercado
 

Quem está na estrada tradutória há um tempo sabe o quanto é trabalhoso “pegar no tranco”, se estabelecer na profissão, investir tempo e capital para poder viver de tradução.

Volta e meia, quem tem essa experiência costuma se exasperar ao ser procurada porque “Fulano, que está desempregado, quer conversar com você para pegar umas dicas para começar a fazer umas traduções”.

Por mais cansativo (e até irritante) que seja ouvir nas entrelinhas de consultas como essa que a sua profissão não é encarada como uma atividade complexa, que requer formação e técnica para ser bem-feita, a verdade é que ninguém tem a obrigação de saber disso, por mais desaforado que soe aos nossos ouvidos.

Temos que aproveitar a deixa da alta procura pela profissão e falar sobre ser tradutora em todos os espaços possíveis, em um esforço de construir um mercado melhor para todos os envolvidos, direta ou indiretamente.

Assim, em vez de fazer a passiva-agressiva com a pessoa que te procurou, experimente encarar esse tipo de abordagem como uma oportunidade para educar quem não é tradutor. Pense que toda pessoa leiga que cruza o seu caminho pode ser um cliente em potencial ou, quem sabe, seu colega de trabalho no futuro.

Não sei vocês, mas eu prefiro ter clientes e pares bem informados sobre como funciona o meu negócio, porque, assim, todos entendem as regras do jogo e, consequentemente, as condições do mercado podem ser mais vantajosas para todo mundo.

Portanto, encare esse hábito de client/peer education como uma profilaxia de mercado, e se acostume a praticá-la, pois nós, tradutores, nunca estivemos tão na moda.

 

4 fatores para a tradução estar em alta

 
O fator remoto

 

Nossa profissão está sob os holofotes porque já era uma ocupação possível de ser exercida remotamente antes de este modo de trabalho virar uma medida de saúde pública. Além disso, o protagonismo do Brasil (até então positivo) no cenário mundial gerou uma demanda maior por serviços de tradução e de interpretação de conferências.

 

O fator empreendedor

 

As condições para exercer a profissão legalmente no país exigem que a pessoa abra uma empresa e abrace a mentalidade empreendedora, amplamente difundida em tempos de crise como o que vivemos.

Trabalhar por conta própria parece ser o único caminho possível de sobrevivência e subsistência quando as instituições públicas são desacreditadas (descrédito este entranhado no nosso imaginário coletivo há séculos) e cada vez mais enfraquecidas por necropolíticas neoliberais de privatização da vida.

No final das contas, para buscar uma vida digna, em que suas necessidades básicas sejam atendidas, é “menos caro” ser uma empresa (ter um CNPJ) do que ser um ser humano (ter um CPF), que exige tantas “despesas” (seguridade social, educação e saúde públicas de qualidade, aposentadoria e afins).

 

O fator “notório saber”

 

A tradução é uma ocupação não regulamentada no Brasil que admite um amplo espectro de origens daqueles que se propõem a trabalhar na área. Para traduzir, você não precisa ser formada em Letras, por exemplo.

Em muitos casos, o chamado “notório saber” (não ter formação específica na área de atuação) basta para a pessoa iniciar a carreira. Porém, aqueles que querem ganhar a vida com a tradução logo veem a necessidade de buscar formação especializada para:

  • atender às expectativas do mercado de serviços linguísticos, que se complexifica paralelamente com os avanços tecnológicos;
  • se sustentar com essa atividade.

 

O fator romantização

 

Traduzir é uma ocupação alinhada às Humanidades que, dentro de uma lógica capitalista e produtivista, é dificilmente assimilada como uma atividade que requer investimentos (de energia, tempo e dinheiro) seja para exercê-la, seja para contratá-la enquanto um serviço.

Some a isso toda uma mística que insiste em romantizar o ofício (“traduzir é dar alma às palavras” e outros jargões floreados), dificultando a valorização da profissão (no sentido de conferir valor monetário ao serviço) e dos profissionais, e ofuscando o que a atividade é em sua raiz: mais uma forma, entre milhares, de uma pessoa vender seu tempo de vida em troca de contraprestação pecuniária.

 

“Parece fácil, mas é difícil…”

 

Na atual crise (só?) econômica, as pessoas estão buscando soluções para ter uma renda, pagar as contas e sobreviver. Não me espanta, portanto, ver uma multidão querendo abocanhar um pedacinho dessa ocupação que carrega o estigma do “notório saber”, que vem acompanhado de argumentações rasas como “morei fora do país por muitos anos” ou “fiz intercâmbio na Disney, sou fluente em inglês” para justificar sua capacidade para trabalhar na área.

A facilidade de acesso aos recursos iniciais que permitem o exercício da profissão tradutor dá a falsa impressão de facilidade de atuação sadia no mercado. E a falta de visibilidade da profissão, experimentada até relativamente pouco tempo, ajudou a fomentar essa imagem equivocada.

E quando digo “atuação sadia”, me refiro à forma como cada um encara o que é trabalhar traduzindo. Sinto que muitos interessados chegam a mim e aos meus colegas iludidos com máximas de ser o próprio chefe, fazer o próprio horário, ostentar fotos de notebook à beira da praia (quando a circulação na cidade não era um risco à saúde individual e coletiva, claro) e ficar rico com isso tudo.

 

"Um belo dia você vai ter que escolher": bico ou profissão?
 

É sempre bom explicar que sim, você pode encarar a tradução como um bico, mas essa postura o manterá preso a uma faixa de rendimento que, com o passar do tempo, não compensará o esforço. E aí, para valer a pena, você terá que investir mais nessa atividade, a ponto de ela sugar todas as suas energias e virar sua principal ocupação. A partir disso, você viverá só de tradução, que é algo possível, não fácil.

No final das contas, ambas as opções estão aí para o nosso livre arbítrio escolher. Há oferta para os dois caminhos. A questão é saber quais são as suas reais expectativas ao cogitar trabalhar com tradução.

Indo direto ao ponto: para sobreviver e viver bem de tradução é preciso dedicação exclusiva como em qualquer outra profissão. E a gente sente quando a hora de decidir se aproxima. Se esse é o seu caso, aproveite. Nunca existiram tantas mãos estendidas para ajudar quem chega no rolé.

 

— Carolina Walliter