O tradutor e o estresse no contexto da pandemia da Covid-19, parte 2: efeitos e perspectivas

Data de publicação: 16/08/2021, 10:36

Voltando a falar sobre o estresse

 

Já falamos bastante sobre isso no artigo anterior, mas talvez ainda reste uma questão crucial para a nossa análise: O que é o estresse?

A Biblioteca Virtual de Saúde do site do Ministério da Saúde (link: https://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/2068-estresse) define o estresse como uma reação natural do organismo que ocorre quando vivenciamos situações de perigo ou ameaça. Esse mecanismo nos coloca em estado de alerta ou alarme, provocando alterações físicas e emocionais.

É interessante perceber, então, que o estresse é uma reação natural e esperada na espécie humana. Inclusive, até certo ponto, uma certa quantidade de estresse pode ter consequências positivas para nós, como dar mais energia, melhorar a empatia, ampliar a criatividade, melhorar o desempenho da memória e a velocidade de reação (link: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/12/17/lado-positivo-do-estresse-veja-6-beneficios-e-como-usa-lo-ao-seu-favor.htm). O problema é quando o estresse passa dos limites ou quando passamos muito tempo submetidos aos seus efeitos; nesse caso, qualquer possível benefício é eliminado e ficamos à mercê dos sintomas do estresse crônico. E muitos dos problemas dos quais os colegas tradutores sofrem ou reclamam nesse mais de um ano de pandemia advêm exatamente desses sintomas e das suas consequências.

 

Cabin Fever, ou a “Síndrome da Cabana”

 

O termo cabin fever é usado em países de língua inglesa para descrever sensações e sintomas que surgem quando uma pessoa ou grupo fica isolado em ambientes confinados por longos períodos, especialmente se não há uma previsão de quanto tempo essa situação vai durar. Além dos paralelos diretos com as restrições a sair de casa devido à possibilidade de contágio, há outras situações que podem sujeitar pessoas a condições semelhantes. Por exemplo: a tripulação de um submarino ou de uma missão nas estações espaciais em órbita, ter que ficar em casa devido a situações climáticas adversas (como nevascas, furacões, tempestades de areia, etc.). Os sintomas que surgem tipicamente em situações como essas são a irritabilidade, o tédio, a desesperança, a angústia, a inquietação e dificuldades de concentração; em casos extremos é possível também que haja a sensação de claustrofobia e paranoia. (link: https://www.clubedecriacao.com.br/ultimas/dentro-de-casa/)

 

(Imagem: Freepik)

 

Inclusive, alguns filmes retratam situações de isolamento forçado e como isso pode afetar as pessoas. Entre eles, podemos citar O Iluminado, de Stanley Kubrick (1980), no qual a família fica isolada em um hotel durante o inverno, e também O Farol, de Robert e Max Eggers (2019), onde dois operadores de um farol marítimo precisam lidar com uma forte tempestade que os impede de sair da ilha e de se comunicarem com o restante do mundo.

 

Mas isso não é só coisa de cinema…

 

Longe da ficção, existem também alguns casos bem famosos que, embora não envolvessem nenhuma “cabana”, forçaram grupos de pessoas a conviverem em condições de isolamento: o caso da Tragédia nos Andes, de 1972, onde um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo precisou sobreviver por quase dois meses no alto da Cordilheira, expostos a condições e temperaturas extremas (https://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_For%C3%A7a_A%C3%A9rea_Uruguaia_571), e também o caso dos 33 mineradores que ficaram presos na Mina San José, no Chile, em 2010, após um desmoronamento (link: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55926799). Ambos foram adaptados posteriormente para a literatura e para o cinema.

Claro, não estamos dizendo que a necessidade de convívio seja algo forçado para os tradutores, ou mesmo que estejamos sujeitos a tragédias da mesma magnitude (ou a efeitos sobrenaturais, como em O Iluminado). E embora a “síndrome da cabana” não seja oficialmente reconhecida como uma doença ou distúrbio mental, condições de isolamento ou de confinamento realmente geram emoções negativas que podem causar efeitos bem adversos.

Foi por isso que muitos colegas procuraram desenvolver alguns novos hábitos e atividades para melhorar sua convivência com os familiares ou simplesmente para conseguirem espairecer um pouco a cabeça e melhorar a saúde mental.

 

Criatividade para desenvolver novos hábitos

 

Com a assimilação das medidas de distanciamento social, tivemos que mudar ou adaptar alguns hábitos da era pré-Covid-19 para o ambiente do home office. Vimos alguns exemplos artigo anterior, mas alguns tradutores criaram hábitos e rotinas para se adaptarem à nova situação. Vejamos o que alguns colegas passaram a fazer desde que a pandemia chegou por aqui:

 

Mergulhando na leitura, séries e podcasts:

 

“Ouvir podcasts! Descobri um que conta histórias absurdas da vida real e estou viciada. Também retomei a leitura por prazer! Quando se trabalha com textos o dia todo, às vezes abandona-se o hábito da leitura por diversão, mas consegui retomar [a leitura] no ano passado e diminuir a pilha de livros não lidos do meu armário.” — LUISA FACINCANI CAMACHO, tradutora especializada nas áreas técnica e literária.

“Sim. Ioga e o meu momento série. Como agora trabalho remotamente (ainda não vivo só de tradução), não perco tempo com deslocamentos. E essa sobra de tempo eu procuro preencher com momentos prazerosos.” — SIMONE SARDINHA DE BRITO, tradutora.

 

Olhar para dentro e cuidar da saúde mental:

 

“Eu não costumava refletir muito. Tipo, refletir profundamente sobre determinadas situações. O duro é que, nessa pandemia, acabei percebendo a intolerância, inclusive a intolerância exacerbada de alguns profissionais da área de tradução. Como todos estão à flor da pele, independentemente da área de atuação, ando vendo muitos comportamentos tristes. Tenho refletido sobre isso.” — CIBELLE RAVAGLIA, tradutora técnica.

“Meditação. Foi um experimento que deu certo para mim. Tem ajudado a colocar a mente em foco. Além disso, também inclui alongamentos curtos. Passo muito mais tempo sentada e alongar algumas vezes por dia, ainda que por alguns minutos, tem feito bastante diferença.” — LÚCIA MONTEIRO, professora e tradutora freelancer.

“Comecei a meditar agora em 2021.” — JOSÉ AUGUSTO SILVA, tradutor e professor de línguas estrangeiras.

“Acho que só a meditação guiada mesmo.” — ANA RIBEIRO OLSON, tradutora e copywriter.

“Eu voltei a fazer terapia depois de 5 anos e isso fez TODA a diferença. Estava tudo acontecendo do lado de fora e refletindo do lado de dentro, e eu percebi que não conseguiria lidar sozinha com tudo aquilo. Terapia é carinho e autocuidado. Recomendo!” — ANDRÉIA MANFRIN ALVES, tradutora e intérprete.

“Comecei a fazer terapia.” — FABIANA WILLIAMS, tradutora e professora de inglês.

 

Aproveitando a tecnologia:

 

“Os encontros virtuais eram bem mais esporádicos antes do isolamento.” — DEBORAH BROCK, tradutora e revisora da área de localização de jogos.

“Passei a fazer lives de entrevista com pessoas maravilhosas sobre os mais diversos temas, inclusive profissionais, o que virou um novo hobby. Passei a trabalhar em casa também, que era algo que eu detestava fazer antes. Hoje já me acostumei.” — MA CURY REIS, tradutor da área audiovisual para dublagem.

“Não comecei a fazer nada NOVO, mas com certeza passei a fazer algumas atividades com mais frequência do que antes, como jogar jogos de tabuleiro (pela internet, principalmente com a minha irmã e cunhado) e vídeo game — inclusive comprei um Switch no começo da pandemia, embora antes eu já jogasse em outros consoles e no PC. Também passei a participar com mais frequência de eventos online, algo que claramente substituiu em parte minhas atividades sociais presenciais. Ah, e também passei a cozinhar mais. Por incrível que pareça, não produzi um pão sequer nesse período, mas além de cozinhar mais para a minha família, arrisquei fazer umas coisinhas diferentes como algumas conservas, doces mais elaborados, biscoitos. Vale dizer que, no meio da pandemia, eu também resolvi parar de comer carne.” — JANA BIANCHI, tradutora e escritora.

 

Aventuras na cozinha e no quintal:

 

“Elas só mudaram um pouco de foco. Por exemplo, testei pratos elaborados e posso dizer que estou cozinhando melhor agora. Porém, há algo muito importante que aconteceu que não sei se teria dado o passo num ano normal. Eu saí do ‘armário’ em relação à tradução. Assumi que sou tradutora, além de professora de inglês, e estou aí na batalha dizendo literalmente para o mundo: oi, estou aqui e sou tradutora!” — RUBIA GOMES, tradutora.

“[Cuidar da] Horta.” — EDILENE BALESTRIN PINCINATO, tradutora audiovisual.

 

Treinos, esportes & companhia:

 

“Comecei a aprender e praticar tênis. Como as aulas são particulares, só eu e o professor, e não encontro mais ninguém no centro de treinamento, achei seguro praticar. Também comecei a estudar e jogar xadrez.” — BIANCA MELYNA, tradutora, designer instrucional e revisora.

 

Marcas e cicatrizes da batalha

 

O aspecto mais perverso de viver sob o estresse constante — esse mesmo estresse que vem da impossibilidade de sair de casa, da preocupação em não adoecer, da falta de perspectivas em relação à vacinação, entre outros fatores — é que ficamos sujeitos aos seus efeitos e sintomas. Perguntamos aos tradutores e intérpretes se haviam percebido sintomas físicos, psicológicos ou emocionais relacionados ao estresse. E foi neste trecho que sentimos que os colegas realmente “abriram o coração”. Tem como não se identificar?

 

Distúrbios do sono e dores

 

“Sim. Infelizmente, estou tendo que tomar fitoterápicos para dormir melhor porque tenho perdido o sono praticamente todas as noites. Além disso, muitas dores de cabeça e no pescoço por passar muitas horas sentada, já que acabo, erroneamente, não respeitando as pausas na rotina de trabalho.” — SIMONE SARDINHA DE BRITO.

“Eu descobri uma condição hereditária nas pernas durante o confinamento e estou em processo de tratamento desde então. Eu tenho uma circulação péssima e isso piorou muito com a pandemia. Havia dias em que eu quase chorava de tanta dor. E eu descobri que tudo isso se deve a uma doença chamada “lipedema”. Ela ainda é pouco conhecida, então foi uma grande conquista! Um dos fatores de agravamento do lipedema é o estresse. Imagina se não foi uma bomba! Desde que iniciei o tratamento as minhas dores já diminuíram consideravelmente e minha qualidade de vida melhorou muito. Então, apesar de toda a loucura, é possível olhar para esse copo meio cheio em alguns aspectos, ainda que isso não neutralize em nada todo o sofrimento causado pela pandemia. Se eu pudesse escolher, teria optado por descobrir sobre o lipedema enquanto lia notícias no metrô, fazendo algum trajeto corriqueiro, bem aglomeradinha com as pessoas que, como eu, usam transporte público para se deslocar pela cidade.” — ANDRÉIA MANFRIN ALVES.

“VÁRIOS! Hahahah! Morar em um país quase civilizado, enquanto a minha família e amigos estão aí no Brasil, é bem complicado. Então, tive/tenho as crises de choro, insônias e tais, os sintomas de ansiedade/depressão que tanta gente está sentindo. De físico, mais enxaquecas que o normal e um retorno de um antigo problema na articulação temporomandibular.” — ANA RIBEIRO OLSON.

 

Ansiedade e problemas relacionados

 

“Tristeza, um pouco de ansiedade, tensão que acabava causando dores no corpo.” — LETÍCIA CARVALHO.

“Sofro de ansiedade e depressão. Estava sem fazer uso de medicação há quase dois anos e precisei voltar com o acompanhamento psiquiátrico e medicamentoso.” — JOSÉ AUGUSTO SILVA.

“Eu já fazia tratamento para ansiedade e, no começo da pandemia, meus sintomas melhoraram muito, mas o cansaço unido às atividades extras de escola com as crianças fizeram os sintomas voltarem.” — FABIANA WILLIAMS.

“Sim, já tive ataques de ansiedade ao ir ao mercado algumas vezes e, ultimamente, choro sem motivo. Num geral, as sessões com a psicóloga estão cada vez mais necessárias.” — MA CURY REIS.

 

(Imagem: Canadian Occupational Managmenet/Shutterstock)

 

Desânimo, esgotamento e falta de perspectivas

 

“Muitos, principalmente no ano passado (2020). Meu outro trabalho, além da tradução, foi duramente afetado pela pandemia. Sou professora de francês e as aulas online foram extenuantes, o que me levou a diminuir drasticamente a minha carga horária neste ano. Além disso, a preocupação com familiares em grupos de risco foi um fator que fez aumentar significativa o nível de estresse. Felizmente, com a vacinação, começo a sentir meu emocional mais estável.”  — BIANCA MELYNA.

“As alterações de humor ocorrem com mais facilidade e frequência. A falta de vontade ou ânimo para realizar atividades que antes eu amava também aumentou muito. Atividades simples se tornaram ´pesadas e há um clima desanimador em tudo pela falta de perspectiva no futuro. Também estou tendo maior dificuldade de concentração, tanto no trabalho quanto nas atividades de lazer.” — LUISA FACINCANI CAMACHO.

“Sensação de clausura e impotência. Ao sair de casa, uma leve paranoia, uma tensão constante de ‘vou pegar, não vou pegar, será que meus entes queridos vão ser afetados, vai ser grave’? Não poder fazer planos a longo prazo também é difícil. Muitos planos foram deixados de lado por conta da pandemia.” — DEBORAH BROCK.

“Tristeza, desamparo, vulnerabilidade e excesso de cobrança em ser muito produtiva. A cobrança em aproveitar cada minuto para ‘crescer’, ‘aprender algo novo o tempo todo’ e ‘mudar a realidade’ causa, em certos momentos, esgotamento, e traz uma sensação de que ‘nunca nada está bom’. Acho que devemos tomar cuidado e voltar a valorizar as muitas coisas bacanas que construímos antes da pandemia. Vejo também que muitos sentem falta de um pouco mais de leveza nas relações humanas e nas atividades diárias.” — DEBORAH CORNÉLIO.

 

Preocupações com familiares e com a forma física:

 

“Engordei cinco quilos, pois bebi e comi muito mais do que de costume. Há vezes que eu fico muito mal mesmo de não estar encontrando os parentes e amigos. Tenho muita saudade de meu filho, ele mora fora do Brasil e não pôde vir para casa nas festas de fim de ano conforme costume, e nós daqui não pudemos visitá-lo no dia do aniversário dele, que também é um costume familiar.” — RUBIA GOMES.

“Antes de voltar a estudar, que foi antes de julho de 2020, me sentia muito desanimada,  triste,  cansada, impotente diante desta pandemia.  Minha maior preocupação até hoje é meu filho que só tem 13 anos e está em casa, aparentemente,  encara tudo bem, mas voltou à terapia para resolver outras questões. Físicos: estou mais fraca porque parei com os exercícios.” — EDILENE BALESTRIN PINCINATO.

 

Outros sintomas e problemas:

 

“Tive crise de pânico. E foi uma crise muito aguda. Perdi muitas pessoas próximas, e parece que algumas coisas foram acumulando: excesso de trabalho, casamento, filho, pós-graduação atrasada, ansiedade, o fardo de ter que arcar com despesas dos meus pais durante a pandemia… Tudo isso veio à tona em um dia e tive uma baita crise. Com o isolamento, ando meio depressiva também. Mas estou resolvendo com meditação.” — CIBELLE RAVAGLIA.

“Estresse emocional e psicológico. O medo do que vai acontecer e a falta de liberdade, poder ir para qualquer lugar, fazer as atividades de lazer fora de casa, por exemplo, são algumas das coisas que mais fazem falta e acabam esgotando um pouco o emocional e o psicológico. Tento levar tudo da melhor maneira possível, mas alguns dias a angústia da pandemia bate mais forte.” — FLÁVIA MARIANO.

“Sim, e esses sintomas foram mudando ao longo das “fases” da pandemia. Nos três ou quatro primeiros meses, por exemplo, meu rendimento no trabalho e na escrita ficaram bem prejudicados. Também foi um período em que me senti mais triste e desanimada, e, como já comentei, acho que teve muito a ver com ir subitamente de uma rotina de atividade física intensa quatro vezes por semana para quase nada de exercício. Ainda tenho alguns momentos de maior tristeza, e em termos físicos uma alergia de pele persistente que geralmente é engatilhada por estresse vem aparecendo e sumindo ao longo dos últimos meses.” — JANA BIANCHI.

 

(Imagem: Insurance Journal)

 

E o que dizem os especialistas?

 

Conversamos com mais dois especialistas em saúde mental que nos sugeriram mecanismos de como podemos lidar com o estresse em meio ao trabalho em casa e a pandemia da Covid-19.

 

O psicoterapeuta Rogério Leopoldino nos alerta:

Como se não bastasse uma doença nova, com potencial de fatalidade e alta transmissibilidade que, por si só, já é uma enorme fonte de estresse e ansiedade. Para lidarmos com ela, temos que alterar nosso modo de vida. No que se refere ao trabalho, que normalmente toma a maior parte do nosso tempo acordado, muitos profissionais tiveram que aderir ao home office para garantir seu emprego e sustento.

O trabalho em home office já vinha sendo discutido no Brasil e adotado por algumas empresas, apesar da falta de regulamentação. Com a pandemia do COVID-19 essa modalidade passou a ser obrigatória e sem tempo para transição. Há vantagens e desvantagens na modalidade e toda mudança é fonte de estresse para o ser humano, pela necessidade de adaptação.

Como vantagens, podemos citar a comodidade de estar no conforto de casa, não precisar se preocupar com deslocamento, estar presente em caso de necessidade e emergência da família, maior autonomia para o trabalho. Mas há questões a serem ponderadas, pois podem ser fonte de problemas, como a dispersão no trabalho pelas questões domésticas por conta das muitas distrações, a falta do suporte da empresa em caso de problemas com equipamentos ou até uma maior dificuldade de acessar a ajuda de um colega ou do supervisor numa situação de dificuldade.

Outras questões a serem consideradas como potenciais problemas são os de ordem emocional, que podem advir dessa modalidade de trabalho. É muito comum pessoas reclamarem de estar trabalhando mais pois não conseguem se livrar da sensação de não estarem rendendo o suficiente; ou não se desvincular das obrigações do trabalho, pois está acontecendo em casa; ou até pelo medo de perder o emprego, pois o ‘chefe’, por não acompanhar de perto o trabalho, pode achar que a produtividade não está boa, de acordo com o medo do próprio colaborador. Os animais domésticos, os filhos, as tarefas da casa, a TV, a internet e o celular são fatores que estarão à disposição e que tomam nosso tempo e atenção, podendo gerar, de fato, baixa produtividade e colocar o emprego em risco.

E como lidar com tudo isso?

A principal forma de lidar com a ansiedade é a organização, pois nos torna mais conscientes do que estamos fazendo. Todos criamos nossas rotinas e já as tínhamos antes das mudanças impostas pela situação de saúde atual. Essas mudanças são a fonte do estresse que, se demasiado e constante, pode nos levar a quadros depressivos.

  • A orientação, se perceber que se enquadra num dos dois grupos anteriores, ou se perceber que a ansiedade está lhe prejudicando é estabelecer rituais e organizar-se de modo que possa sentir-se menos distante do modo “normal” de trabalho. Segue uma lista de orientações:
  • Acorde no mesmo horário que acordava quando tinha que se deslocar ao trabalho e use esse tempo, que não será gasto no trajeto, para adiantar as tarefas de casa. Assim evitamos aquela tentação de parar o trabalho no meio do caminho para fazer tarefas domésticas.
  • Vista-se como se fosse trabalhar. Pode até dispensar o sapato desconfortável, mas vestir-se para o trabalho pode trazer a sensação e o significado emocional de que não está no ambiente do lar, mas do trabalho. Ficar de pijama, de short, ou seja lá como normalmente fica em casa, traz a sensação de estar de folga, afasta a ideia do trabalho e facilita a dispersão.
  • Comece o dia com um checklist das atividades e entregas que precisa fazer no período; trabalhar com agenda e fixar seus prazos é fundamental para a organização. Isso dará direcionamento e evita ansiedade, pois permitirá que tenha foco e consiga ver o que foi feito, inclusive te dará material para apresentar ao seu superior, caso seja cobrado das atividades desenvolvidas.
  • Respeite seu horário de intervalo/almoço. Feche tudo que for relacionado à empresa e tire um tempo para se distrair, checar suas redes sociais, ligar para um(a) amigo(a), assistir a uma série na TV, brincar com os filhos ou com os animais de casa. Isso evita a sensação de ter perdido a vida pessoal para o trabalho.
  • Ao encerrar seu turno, verifique seu checklist, veja se falhou no planejamento para se organizar melhor no dia seguinte e, enfim, desligue-se do trabalho e volte para sua vida fora da empresa.

Quanto à vida fora da empresa, muitas coisas podemos fazer para aliviar o estresse diário, natural aos nossos tempos, independentemente da pandemia. É importante o contato com os amigos e família, seja presencial (com o devido distanciamento e uso de máscara) ou virtual; ter um tempo para atividade física, praticar algum tipo de meditação; dedicar-se um pouco à sua espiritualidade/religião, caso tenha alguma…

A principal forma de prevenir problemas de saúde devido ao estresse, transtornos de ansiedade e depressão é cuidar da qualidade de vida. E organizar nosso tempo e encontrar um momento para cada coisa que seja importante para nós é o primeiro passo.

Outra especialista, a psicóloga e tradutora Patrícia S. Herrera Paes, nos dá também sua visão profissional e mais dicas para lidar com esse momento tão delicado.

Se você não trabalhava em casa, é bem provável que tenha passado a fazê-lo no último ano. Se já trabalhava, o mais provável é que agora o faça com a companhia de outros membros da família — incluindo crianças e suas aulas online! Não por opção, mas por convocação, milhões de pessoas no mundo inteiro vivem há mais de um ano essa realidade que trouxe desafios significativos para nossa qualidade de vida e saúde mental. Como mãe, psicóloga e tradutora, venho compartilhar algumas dicas para tentar amenizar esse cenário muitas vezes indigesto. Vem comigo:

  1. Rotina?

É ótimo ter uma rotina, organizar o dia e sentir que tudo foi cumprido à risca. Entretanto, tem sido também necessário ser mais flexível e acomodar mudanças, imprevistos e muitas vezes as necessidades de outras pessoas que precisam de você. Ser capaz de se adaptar é fundamental neste momento — sem perder o foco nas metas e prazos!

  1. Cuide de você, permita-se!

A realidade é dura demais para não se permitir ver aquele filme, comer aquele hambúrguer que tanto deseja ou dormir aquela hora a mais. Observe-se, não descuide da hidratação, alimentação, atividades físicas e autocuidados de sempre. E daí que ninguém está vendo? Você está! Faça mais do que te faz bem e te ajuda.

  1. Evite excesso de estímulos aversivos.

Estar em casa torna fácil ligar a TV ou o rádio e ser engolfado por notícias (na maioria ruins) por horas a fio. Estar informado é importante, mas o excesso de exposição a situações sobre as quais não temos controle e não podemos influenciar pode ser um dreno de energia importante — e desnecessário.

  1. Reconheça seus limites.

Tudo bem se não tivermos a mesma produtividade de antes, ou níveis de produtividade diferentes ao longo dos dias. Busque o equilíbrio e aceite que algumas vezes não será possível aceitar um ou outro job — dói, mas melhor isso do que não entregar no prazo ou não fazer bem-feito.

  1. Vai passar!

Estamos ancorados nessa situação há bastante tempo e fica um pouco difícil visualizar como será o depois, mas será! O bom de cenários dinâmicos é que tudo pode mudar rapidamente, inclusive para melhor. Lembre-se dos seus sonhos, planos e pessoas que ficaram em afastados ou em stand by nesse período, e em como será maravilhoso reencontrá-los e conquistá-los em breve.

Esperamos que esta série tenha contribuído de alguma forma, tanto para identificar os sinais de estresse que nos assolam quanto com o auxílio dos profissionais sobre como ter uma vida mais equilibrada e, de alguma forma, sofrer menos com os sintomas do estresse inevitável de se estar confinado e passando por reações adversas durante esse tempo prolongado. Lembre-se sempre de procurar um profissional especializado quando se sentir desconfortável. Saúde mental é uma parte muito importante do nosso bem-estar, talvez até a MAIS importante. Por isso, atenção especial com ela!

 

Psicólogos consultados neste artigo:

Rogério Leopoldino, psicoterapeuta. Links para contato:

  • Instagram
  • Whatsapp pra contato: +55 16 99118-1428

Patrícia S. Herrera Paes, tradutora e psicóloga. Links para contato:

 

Tradutores que participaram com os seus depoimentos:

Luisa Facincani Camacho

Andreia Manfrin Alves:

Deborah Cornélio:

Ana Ribeiro Olson:

Jana Bianchi:

Letícia Carvalho:

Bianca Melyna:

Deborah Brock:

Ma Cury Reis:

Rubia Gomes:

José Augusto Silva:

Simone Sardinha de Brito:

Fabiana Williams:

Edilene Balestrin Pincinato:

Flávia Mariano:

 

— Ivar Jr e Luciana Boldorini