Entrevista: As particularidades e o mercado atual da tradução para dublagem

Data de publicação: 03/02/2022, 08:31

 

Nós, tradutores, costumamos assistir a filmes e séries no idioma original. Às vezes, com legenda para contentar todos da casa, não é? Muitas vezes o material dublado nem chega aos nossos ouvidos, mas a maior parte dos brasileiros assiste às produções dubladas.

São 6 em cada 10 brasileiros assistindo a filmes e séries dubladas, de acordo com este artigo da Folha de São Paulo:  59% do público consome dublagem no streaming e nos cinemas. A demanda para esse mercado só cresceu, principalmente após as restrições da pandemia de Covid-19. 

Mas… e agora? Como anda o mercado? Que cursos temos que procurar? Quais as particularidades da profissão? Nesta entrevista, Ma Reis (@macuryreis) e Paulo Noriega (@paulonoriega), dois profissionais feras no mercado da dublagem, dão dicas incríveis para você que se interessa pelo mercado de tradução para dublagem.

Vem com a gente!

Só os feras!

 

A Equipe Rook pergunta: Como / quando vocês iniciaram nessa área?

MA REIS: Iniciei oficialmente como tradutor audiovisual para dublagem em 2007. Em 2006 eu tive a chance de conhecer a empresa para qual trabalho principalmente até hoje, que é a Vox Mundi. Cheguei lá para conhecer mesmo, até porque eu estava no primeiro ano da faculdade de tradução. Eles tiveram problema com o tradutor de espanhol, que era o único que eles tinham. Chegou material e não tinha quem fizesse. Eles perguntaram se eu fazia espanhol, eu disse que sim, então peguei um teste para fazer e passei no teste.

PAULO NORIEGA: Eu sempre fui apaixonado pela dublagem até hoje, e precisamente pela dublagem brasileira. Em 2010 eu fiz o curso de tradução para dublagem, oferecido na época pelos cursos de extensão da PUC-Rio, [ministrado pela] Dilma Machado, uma das principais tradutoras para dublagem do país, que hoje é uma grande amiga. 

Foi em julho de 2012, quando eu estava na reta final da faculdade, que consegui minha primeira oportunidade em um estúdio aqui do Rio de Janeiro que estava começando a investir em dublagem. Era mais ou menos a época em que os canais de TV a cabo estavam realmente começando a investir mais em dublagem — isso antes dos streamings serem o que são. 

MA REIS: Eu fui começar a traduzir programas para dublagem de fato em 2007 e comecei com um programa chamado  “La Vuelta al Mundo en 80 Sabores”, um programa de gastronomia. Meu primeiro programa em inglês foi “A Baby Story”, “A história de um bebê”, que era a história dos partos. Dava bastante trabalho, porque na tradução para dublagem a gente tem que colocar todas as reações, né? Qualquer gritinho tem que ser colocado. Então, imagine isso num programa de parto!

PAULO NORIEGA: O meu primeiro trabalho oficial foi uma legenda no Telecine, e o meu primeiro trabalho na área de dublagem mesmo foi precisamente em julho de 2012. E desde então nunca mais parei. Estamos abrindo 2022 e eu vou completar 10 anos de carreira atuando nesse universo da tradução para dublagem. Faço algumas coisas também na área de serviços linguísticos, mas o grosso do que faço hoje em dia continua sendo a tradução para dublagem.

 

Dizem que cada trabalho é como um filho, mas neste caso…

 

 

A Equipe Rook pergunta: Quais são alguns dos trabalhos que vocês fizeram nessa área?

PAULO NORIEGA: Chega uma hora em que a gente nem lembra mais do que já fez, e realmente já fiz muita, muita, muita coisa né? Nos últimos 4 ou 5 anos, o grosso do que eu faço são coisas que estão na Netflix: todas as temporadas do Desencanto, que é um desenho do Matt Groening; as 3 temporadas de Titãs, o live-action do desenho da equipe de heróis da DC; Tudo do universo de The Witcher, que está sendo criado e concebido para Netflix e o filme “The Witcher: A Lenda do Lobo”, em formato de animação. Tem animações recentes do Mortal Kombat: Mortal Kombat Legends, A Vingança de Scorpion e a Batalha dos Deuses. Na Amazon Prime tem Niko e a Espada da Luz e Se Der Um Biscoito a Um Rato, um desenho infantil muito bacana e fofinho.

MA REIS: [Trabalhei com] Bridgerton, The Midnight Gospel, Primeiro Mataram meu Pai, Ícaro, One Day at a Time, Not a Boy/Not a Girl, The OA, Velvet Colección, Malcolm & Marie, Mr. Iglesias, Family Reunion, Brincando com fogo, Goliath.

PAULO NORIEGA: Só para complementar, eu gosto muito de animações japonesas. Na Netflix, por exemplo, eu traduzi Kakegurui, as duas temporadas, e Great Pretender, que foi um anime muito consagrado de 2020. 

Já deu uma moeda para o seu bruxo hoje? 

 

 

A Equipe Rook pergunta: Que cursos vocês fizeram para se aprimorar?

PAULO NORIEGA: É interessante porque especificamente na área de tradução para dublagem nós não temos, no Brasil, cursos para podermos nos aprimorar. O principal expoente, atualmente, é a ESTRADA, a Escola de Tradução Audiovisual. Lá tem um curso avançado também… mas é só. Muitas das novidades do mercado, principalmente por conta do streaming, a gente está aprendendo a medida que a indústria vai evoluindo. Tem muitas coisas que os estúdios também estão aprendendo. A gente está crescendo e aprendendo juntos.  

MA REIS: Eu sou formado em tradução — bacharel em letras com habilitação de tradutor — pela Unesp de São José do Rio Preto, então já saí da faculdade com um bom estudo de tradução em geral. Eu já trabalhava desde o início da faculdade com tradução audiovisual e meio que fui me formando no mercado, com a experiência mesmo, mais do que com qualquer curso.  Cheguei a iniciar 2 pós-graduações. Uma em tradução, mas era muito ampla; não gostei do curso e parei. E, a outra foi em interpretação, mas essa ia para outra área completamente diferente. Em algum momento eu tive que escolher o que eu ia fazer e o que eu não ia fazer, então não concluí.

PAULO NORIEGA: O que eu tenho feito, cada vez mais, é voltar a me debruçar de uma forma mais ferrenha ao português, à nossa língua, porque as traduções estão cada vez mais “duras”, cada vez mais presas ao original por conta dessa anglicização pela qual o nosso idioma está passando. Tenho feito muitos cursos de português para me reconectar com as nossas estruturas, com nosso próprio jeito de falar para eliminar certos vícios de linguagem da minha própria fala e da minha escrita, porque, de uma forma consciente ou inconsciente, isso passa para a tradução. 

MA REIS: Eu acho que o tradutor está sempre estudando, em todos os sentidos, o tempo inteiro. Então, quando você vai fazer qualquer trabalho, tem que pesquisar absolutamente tudo. Isso faz parte da formação também. Não fiz muitos cursos focados [na tradução para dublagem], mas dei aulas em cursos focados nisso. Aprendi muito com a prática mesmo.

PAULO NORIEGA: Tenho feito muito esse processo de comprar materiais de apoio em português, começar a ler e reler alguns clássicos da literatura, dos principais expoentes do nosso idioma que conseguiram usar bem o português. Português se aprende com o bom português. Eu faço muitos esforços em termos de estudo, de consumir o máximo de coisas e de me debruçar de novo sobre todo o tesouro linguístico que o nosso idioma tem. Porque se não somos bons nativos, não seremos bons tradutores.

 

A Equipe Rook pergunta: Como está o mercado para tradução para dublagem hoje em dia (início de 2022)?

MA REIS: Está bem aquecido. Foi uma área que não sofreu negativamente com a pandemia. Na verdade, com essa situação, a parte de entretenimento virou um foco maior para as pessoas, elas começaram a acompanhar mais televisão, filmes, etc. Eu diria que é uma área que está em crescimento constante, principalmente depois do surgimento dos canais de streaming. Isso mudou completamente o jogo, a forma como funciona a tradução. 

PAULO NORIEGA: O mercado de tradução para dublagem, assim como o mercado de tradução para legendas, está muito aquecido por conta do streaming. Tem muitos estúdios hoje que, há poucos anos, eu nunca tinha ouvido falar, porque também tem muitos streamings novos, muitos, muitos. Não só a própria Netflix que já tem um catálogo imenso, mas tem também a Amazon Prime, Disney Plus, Peacock, Hulu, Paramount Plus, Starz Plus… isso incentivou uma grande nova leva de conteúdos originais que disputam a fidelidade do público. É aquela coisa de ter um produto especial que você só vai encontrar na minha plataforma tanto que até justificou o crescimento e surgimento de novos estúdios de dublagem.

Sempre tem espaço pra profissionais sérios e qualificados.

 

 

MA REIS: O problema é que, muitas vezes, as pessoas chegam para trabalhar no mercado sem nenhum tipo de experiência, sem curso focado. E, o trabalho é uma coisa tão insana [em termos de] quantidade, de gente, de trampo, que é difícil encontrar lugares ou pessoas dispostas a formar outras pessoas. E aí fica difícil para quem está entrando sem nenhum tipo de experiência na área. Acho que isso funciona em todas as áreas, né? Querem pessoas já experientes e formadas, mas poucos são dispostos de fato a formar essas pessoas.

PAULO NORIEGA: É óbvio que [o mercado] precisa de profissionais minimamente preparados. Você tem que fazer um curso bom de tradução para dublagem, ter conhecimentos linguísticos fortes e sólidos, para poder traduzir decentemente. É um mercado que eu acredito que vai continuar aquecido por um bom tempo.  De tempos em tempos surgem janelas de oportunidade, porque surgem estúdios novos. Os estúdios antigos também vão criando novos estúdios (salas) de gravação. À medida que a demanda aumenta, precisa, consequentemente, de novos tradutores para poder suprir a demanda. 

 

A Equipe Rook pergunta: Que tipo de empresa contrata serviços de tradução para dublagem?

MA REIS: Quem contrata serviço de tradução para dublagem são as produtoras de dublagem mesmo, que muitas vezes trabalham tanto com dublagem quanto com legendas. Mas assim, das que trabalham só com dublagem, a maioria está em São Paulo, na Lapa. São Paulo e Rio, que são o grande foco de dublagem brasileira. Existem algumas produtoras também fora do Rio e de São Paulo, mas tem toda uma questão relacionada a algumas delas não seguirem os acordos dos dubladores. Essas empresas acabam sendo meio que deixadas de lado, as pessoas falam mal delas no mercado… esse tipo de coisa. Não acho que isso afeta diretamente a tradução; normalmente afeta quem dubla nessas casas. Mas, para a tradução eu acho que não funciona assim. 

PAULO NORIEGA: Tem estúdios na “gringa”,  mas não muitos, até onde eu sei. Os principais estúdios estão no eixo Rio-São Paulo, claro, que foi o eixo no qual a dublagem brasileira surgiu e foi se moldando. Então, a nata da dublagem está no eixo Rio-São Paulo, nas capitais. Tem alguns outros lugares como em Belo Horizonte, no Rio Grande do Sul, mas, são estúdios que ainda estão começando, porque a dublagem se pulverizou muito. Hoje em dia tem estúdios que se especializam em certas coisas, certos gêneros e tal. Mas, por excelência, sempre tem a figura do estúdio de dublagem; não tem muito essa figura do “cliente direto”, como na legendagem, por exemplo. O tradutor de dublagem fica sob a esfera do estúdio, sob o orçamento do estúdio. 

MA REIS: A grande questão é: quem paga o suficiente para que você trabalhe com tradução para dublagem? É um trampo que exige muita, muita experiência, que exige muito trabalho. E ainda tem empresas que vão pagar R$ 6,00 por minuto, já que normalmente a gente recebe por minuto de projeto. Isso é um problema seríssimo, porque não tem como uma pessoa que ganha R$ 6,00 por minuto entregar um trabalho de qualidade no prazo que eles pedem. Não tem a menor chance de acontecer. Hoje eu sugiro buscar trampo nas empresas do Rio ou de São Paulo. São Paulo é hoje o maior foco do país, sem dúvida. O Rio de Janeiro já foi esse foco, mas hoje é São Paulo. E, procurar empresas que sejam sérias.

 

A Equipe Rook pergunta: O que um tradutor para dublagem tem que ter como diferencial?

PAULO NORIEGA: Gostar de dublagem; eu acho que isso é vital. Eu sei que recai naquela coisa muito piegas de que você tem que amar o que você faz, mas é isso: amar o seu objeto de estudo. É que nem um tradutor de literatura que não lê. Não faz muito sentido. 

MA REIS: Tem que saber como funciona a dublagem. Tem que gostar de assistir algumas coisas dubladas. Não quer dizer que você precisa preferir dublado ou legendado, isso é  bobagem. A ideia é justamente que a tradução audiovisual, tanto pra dublagem quanto pra legendagem, seja vista como um processo de acessibilidade. Então, entender esse processo de acessibilidade, entender como funciona o projeto em que você está trabalhando, se é uma coisa mais solta na linguagem, se é menos solta… tem que ficar atento a isso.

PAULO NORIEGA: Os tradutores que são apaixonados pela dublagem vão se dedicar mais a realmente entender como aquilo funciona, são os que vão atrás de estúdios, descobrir as técnicas mais avançadas, mais refinadas… são tradutores mais observadores. No português há uma questão muito complicada: Como a dublagem lida com a oralidade. Na oralidade a gente comete alguns lapsos, a oralidade pode ser um pouco mais fluida, mais solta…  mas não pode cair no “vale-tudo”. Não é porque ontem as pessoas começaram a falar de um jeito que você já tem que colocar na sua dublagem, A dublagem é um trabalho que circula sabe-se lá durante quantos anos. Então o ideal é que, na medida do possível, esse produto envelheça bem. 

MA REIS: [É importante] assistir muitas coisas, ser muito curioso, pesquisar sempre, sem exceção. É importante que o tradutor para dublagem entenda o conceito de sync* (sincronismo se refere à duração da tradução com as falas dos personagens) e para isso eu sempre indico que as pessoas que estão trabalhando com isso busquem a chance de acompanhar um estúdio em algum momento, de chegar no estúdio e ver como está sendo dublado aquele texto.

PAULO NORIEGA: Precisa ter muito discernimento do que você vai colocar, como palavras em inglês desnecessárias, já que a dublagem é uma modalidade acessível. Então, evitar o uso de estrangeirismos excessivos, valorizar as estruturas do português, não recair em estruturas “macarrônicas” e presas ao inglês — o famoso “tradutês”. 

MA REIS: Uma coisa é imaginar o texto na cabeça, sabe? Às vezes o texto precisa ser falado e interpretado. E aí as reações precisam constar: se tem uma respirada, essa respirada tem que estar marcada no texto. Ou seja, entender que é [um processo de] transformar um texto, de pensar o texto já imaginando que ele será falado. E é esse o grande desafio: adaptar a linguagem de maneira que ela fique natural, e que fique natural dentro do sync.

PAULO NORIEGA: É ter o discernimento do bom uso da língua na oralidade, ter bom senso, tentar chegar no meio do caminho. Um tradutor que tenha isso, com certeza, vai conseguir se destacar e saber se embasar. Ter conhecimento linguístico suficiente e [também] de tradução, das técnicas de tradução, das principais estratégias para poder saber defender as suas escolhas diante de todo mundo que vem na cadeia, como o  diretor, o cliente e tal. Tem que ter um bom conhecimento linguístico e um bom conhecimento tradutório.

 

A Equipe Rook pergunta: Fiquem à vontade indicar cursos, sites, recursos e também divulgar perfis de rede social para seguir, sites onde escrevem, etc. É hora do jabá! E muito obrigado por concederem esta entrevista para o blog da Translators101.

MA REIS: Indico o curso da ESTRADA, da Dilma Machado. Indico também que os tradutores façam um curso básico de dublagem pra entender como funciona o processo. Para isso, indico o Primeiros Passos para Dublagemda Cia. Dom Caixote

Eu uso o Instagram como ferramenta pra falar tanto de tradução quanto de militância LGBTQIAP+, tento ser bastante acessível sempre. Meu perfil é o @macuryreis

Já dei diversas palestras, uma delas, inclusive, para a Translators101, que recomendo de olhos fechados. Recomendo também a participação em Semanas de Tradução universitárias, como a Semana do Tradutor da Unesp de São José do Rio Preto (que acontece na última semana de setembro, normalmente).

PAULO NORIEGA: Tem artigos no meu site, o Traduzindo a Dublagem, e também o meu perfil no Instagram @paulonoriega. Mas, como o perfil é fechado, peço que as pessoas que quiserem seguir se identifiquem. 

 

Palestras do Paulo Noriega exclusivas para assinantes Premium da Translators101: S01E02 — A TRADUÇÃO DA ANIMAÇÃO (DES)ENCANTO: MUITOS APRENDIZADOS (E UM POUCO DE REBELDIA)

ESPECIAL #ITD 2020 — O TRADUTOR PARA DUBLAGEM, O TEXTO TRADUZIDO E O ESTÚDIO

 

Palestra do Ma Reis exclusiva para assinantes Premium da Translators101:

S03E05 — A LINGUAGEM LGBTQIA+ NA TRADUÇÃO PARA DUBLAGEM

 

— Ivar Jr e Luciana Boldorini, Rook tradução.