A localização de boardgames e o trabalho do tradutor – parte 2

Data de publicação: 16/08/2021, 10:42

Sejam todos bem-vindos à parte 2 deste artigo sobre um assunto tão cheio de detalhes e que ainda é pouco explorado entre os tradutores que atuam no mercado brasileiro. Como prometido, falaremos sobre desafios, oportunidades, estilos de textos e assuntos afins.

A pergunta que não quer calar (e a resposta correspondente)

 

A pergunta que mais ouvimos nestes anos como tradutores especializados na localização de jogos de tabuleiro provavelmente é a seguinte: é preciso ser jogador para ser tradutor de jogos?

Nossa resposta: Ser jogador ajuda muito o tradutor!

E não estamos falando necessariamente de ser um jogador hardcore, com estantes cheias de caixas de jogos e suas respectivas expansões. Mas ter familiaridade com esse tipo de produto, mesmo que em nível casual, facilita bastante a jornada do tradutor que quer se aventurar pelo mundo dos tabuleiros, peões, dados, tokens e manuais de regras.

 

E há uma explicação científica para isso. Se nos ancorarmos nos estudos da Análise de Discurso de matriz francesa pecheutiana, vemos que o sujeito (como denominamos em linguagem científica) é atravessado por ideologias e formações ideológicas enquanto vai se constituindo como tal. Como diz a professora Eni Orlandi em seu livro “Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos” (2001- Ed. Pontes): “Podemos começar por dizer que a ideologia faz parte, ou melhor, é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer.” Daí podemos concluir que, muito provavelmente, nós, nerdsgeeks, jogadores, fomos interpelados durante bastante tempo por essa ideologia e esta nos formou.

Não queremos aqui traçar tratados, entretanto; estamos apenas, como bons nerds, tentando trazer uma conclusão científica para a nossa “facilidade” em traduzir jogos.

 

Embasamento científico? Tem também!

 

Vamos trazer aqui mais um excerto do livro da Professora Orlandi: “É pela referência à formação discursiva que podemos compreender, no funcionamento discursivo, os diferentes sentidos. Palavras iguais podem significar diferentemente porque se inscrevem em formações discursivas diferentes. Por exemplo, a palavra “terra” não significa o mesmo para um índio, para um agricultor sem terra e para um grande proprietário rural. Ela significa diferente se a escrevemos com letra maiúscula, Terra, ou com letra minúscula, etc. Todos esses usos se dão em condições de produção diferentes e podem ser referidos a diferentes formações discursivas.” (ORLANDI, 2001)

Ou seja, se nós, sujeitos-tradutores-nerds, fomos atravessados toda uma vida por filmes geek, livros de fantasia, jogos de tabuleiro, e se estamos sendo arrebatados por esse universo desde a época do Atari/Odyssey (quem é da velha guarda lembra!) a probabilidade de nossas escolhas linguísticas acabam pendendo mais para o acerto.

Dito isso, nós, sujeitos-tradutores-nerds, vorazes por conhecimento e formação, podemos seguir para o mundo real do mercado de jogos de tabuleiros em busca de oportunidades.

 

A tradução de boardgames no Brasil: nadando entre tubarões e cachalotes

 

O mercado de boardgames, especialmente o brasileiro, é bem peculiar. Relembremos a parte 1 deste artigo (https://translators101.com.br/app/recursos-blog-podcast/traducao-de-boardgames)  onde ressaltamos o público consumidor de jogos de tabuleiro. É preciso considerar duas características essenciais:

  1. O público-alvo deste produto é muito exigente.
  2. O preço ao consumidor desse produto é elevado, chegando à casa das centenas ou até milhares de reais.

Assim, colocar a tradução/localização de um produto com tanto valor agregado nas mãos de pessoas pouco capacitadas é arriscar a reputação da empresa responsável por trazer esses jogos ao Brasil.

Um exemplo muito famoso que rodou a internet em 2019-2020 foi o caso conhecido como “esperma de baleia”. O jogo onde isso aconteceu é ambientado em um cenário de piratas que passam os dias desbravando águas e saqueando navios mar afora. Entre os componentes do jogo, há cartas que descrevem alguns dos personagens mais notórios, e alguns deles têm características inspiradas em animais marinhos, como a sperm whale. Uma olhada rápida em qualquer dicionário (ou mesmo no Google Tradutor) mostra que esse é o termo em inglês para a baleia cachalote, um dos maiores mamíferos aquáticos.

 

 

Você pode acompanhar o post que gerou toda a discussão neste link: https://translators101.com.br/app/recursos-blog-podcast/traducao-de-boardgames

 

O universo de localização de boardgames no Brasil é tão recente que, às vezes, os profissionais ou equipes cometem equívocos nas escolhas durante a execução do trabalho. Quem caminha por esse universo de jogos de tabuleiros já deve ter se deparado com algumas más escolhas. Por exemplo: não é por que um youtuber famoso conhece muito bem determinado jogo ou produto que isso o torna um tradutor proficiente. Óbvio para você, tradutor, mas não para algumas empresas que gostam muito da estratégia mercadológica de ver sua marca associada a alguém famoso. Não se pode confundir as coisas.

 

Adaptações, competências e experiência

 

Além do tradutor precisar ter noções mínimas do que é um jogo de tabuleiro moderno, vale lembrar que a formação continuada do profissional é pré-requisito fundamental para qualquer área que se queira seguir. A língua não é estática, como nos diz a Professora Vera Lúcia Anunciação Costa, da Universidade Federal do Paraná, em seu artigo “A importância do conhecimento da variação linguística” (1996): “A língua não é, como muitos acreditam, uma entidade imutável, homogênea, que paira sobre todos os falantes. Pelo contrário, todas as línguas vivas mudam no decorrer do tempo e o processo em si nunca para. Ou seja, a mudança linguística é universal, contínua, gradual e dinâmica, embora apresente considerável regularidade”.

Então, colegas tradutores, se não nos atualizarmos, estudarmos e nos familiarizarmos com ferramentas (como as CAT Tools, por exemplo), estaremos fadados à estagnação profissional e mercadológica, consequentemente. Especialmente porque grandes clientes, entre elas as agências de tradução e as produtoras de jogos de tabuleiro (e também de jogos eletrônicos, por que não?) vêm exigindo que os tradutores tenham um conhecimento que vai além de fazer a ponte entre línguas; é preciso conhecer também softwares, ferramentas de produtividade e outras tecnologias para fazer o trabalho fluir entre as etapas de um projeto de tradução ou localização da maneira mais eficiente possível.

 

Um produto, vários estilos de texto

 

Ah! E é preciso mencionar também que os jogos de tabuleiros modernos são produtos comerciais para o entretenimento, ou seja: além das regras do jogo, há também existem outros tipos de texto que constituem o produto final.

O texto das regras, ou “crunch” na linguagem dos jogos em geral, é eminentemente técnico. Geralmente há referências a dados, tabelas, modificadores e outros aspectos das regras que precisam ser traduzidos com um cuidado a mais: é necessário verificar se os dados numéricos da tradução batem com o texto original, porque, muitas vezes, são erros que o corretor ortográfico não acusa. Compare:

  • Vire esta carta e adicione +2 naves à sua frota.
  • Vire esta carta e adicione +22 naves à sua frota.

Perceba como um erro de um único caractere pode deixar o jogo completamente desbalanceado. E, sendo um produto que custa caro, com um público-alvo que é bastante exigente em relação a essas questões, basta um descuido na tradução (ou mesmo na revisão) para que as hordas de consumidores comecem a destilar sua fúria pelas redes sociais.

Há também o texto literário-descritivo, também chamado de “fluff” ou “flavor”. É o texto que vai ambientar os jogadores no universo em que serão inseridos. Aqui os tradutores têm um pouco mais de liberdade na hora de traduzir, mas muitas vezes precisam também atentar ao espaço físico (e à consequente limitação de caracteres) para fazer a tradução. Muitos jogos têm cartas como componentes, e frequentemente essas cartas não comportam um texto muito grande.

E uma característica bem presente nos textos dos jogos de tabuleiro é que eles passam do técnico para o descritivo-literário (e vice-versa) com bastante frequência; muitas vezes isso acontece no mesmo parágrafo ou segmento.

Finalmente, há também a caixa do jogo. Ela é recoberta por textos publicitários que instigam a curiosidade do jogador e a consequente compra do produto. Há de se ter certa familiaridade com esse tipo de texto e suas peculiaridades, que muitas vezes não é simplesmente traduzido; pode ser necessário fazer uma transcriação para adaptá-lo ao mercado local, envolvendo uma colaboração entre os tradutores e o departamento de marketing da empresa responsável pela publicação do boardgame.

 

Há oportunidades? Sim, muitas!

 

O mercado de jogos analógicos (entre jogos de tabuleiro e card games, que têm um processo de produção bem parecido e são publicados pelas mesmas empresas) vinha crescendo num ritmo forte até o início de 2020, de acordo com dados do site da revista Forbes (https://forbes.com.br/colunas/2019/07/mercado-de-jogos-de-tabuleiro-ganha-espaco-no-brasil/). Além dos publishers de boardgames, algumas outras empresas começaram a investir em atividades relacionadas à área: houve o surgimento, em várias cidades, das luderias, lojas que disponibilizam jogos para que as pessoas os conheçam e se divirtam em sua área interna, com monitores treinados para ensinar as pessoas a jogarem os títulos que querem conhecer — ou até mesmo a sugerir algum, baseado no estilo preferido dos clientes. E há também empresas especializadas em produzir acessórios para os jogos de tabuleiro, como inserts (divisórias internas para melhor armazenamento dos componentes, geralmente feitas de MDF ou materiais mais resistentes do que o original) e sleeves (envelopes plásticos que protegem as cartas e outros componentes impressos que são manipulados com frequência, evitando o desgaste prematuro).

 

 

Com a chegada da pandemia da COVID-19, o mercado acabou entrando numa espécie de “hibernação”. Os publishers diminuíram o ritmo de lançamentos e os jogadores estão esperando pelo relaxamento das medidas de distanciamento social — afinal, jogar boardgame é uma atividade que fica melhor em grupos. Conforme a economia for se recuperando, devemos perceber também uma retomada no consumo de jogos de tabuleiro aqui no Brasil, fazendo com que os lançamentos das versões traduzidas voltem a acontecer com mais frequência. E também voltaremos a ver eventos como o Diversão Offline (https://diversaooffline.com.br/), que reúne editoras e o público consumidor para o anúncio de lançamentos e que, em sua edição de 2019, movimentou R$ 800 mil em negócios durante os dois dias do evento, totalizando mais de R$ 2 milhões em suas 6 edições.

E é aí que estão as oportunidades para os tradutores que querem entrar na área. As mais imediatas vão contemplar aqueles do par inglês/português; mas, a longo prazo, é bem possível que haja demanda para verter jogos brasileiros que venham a ser publicados no exterior, pois os game designers brasileiros estão começando a ser notados por publishers estrangeiros e um novo filão de mercado está se desenvolvendo.

Quem topa encarar o desafio?

 

Gostaria de agradecer imensamente ao grupo de estudos Gepalle – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização, Leitura e Letramento da FFCLRP – Faculdade de Filosofia Ciências e Letras – USP – Ribeirão Preto, liderado pela Professora Doutora Elaine Assolini, ao qual faço parte, pois, sem o embasamento teórico adquirido através da ciência, parte deste singelo artigo não seria possível. — Luciana Galeani Boldorini.

 

— Ivar Jr e Luciana Boldorini